5° LUGAR – CRÔNICA NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
A passagem da capa de super-herói
Francine Cruz Grison
Curitiba/PR
A guirlanda volta à porta, o calendário exibe sua última folha. Dezembro não é apenas
o encerramento de um ciclo cronológico, mas uma lente de aumento. Sob o brilho
intermitente do pisca-pisca, percebemos que não apenas os móveis mudaram de lugar, mas
que nós mesmos nos tornamos o sedimento de tudo o que vivemos desde a última ceia.
No começo, o mundo tinha o tamanho do quintal e o Natal era uma geografia de
pernas e risadas de gigantes. O futuro era uma promessa; a única preocupação era rasgar o
papel de presente e descobrir se o pedido ao Papai Noel havia sido atendido. A eternidade
cabia numa noite de véspera.
Então, o corpo espichou e a paciência encolheu. Na adolescência, fugíamos da sala
para o quarto, os fones de ouvido servindo como escudos contra as risadas da família. Na foto
oficial, aparecemos de braços cruzados, canto da boca torcido, achando aquela alegria toda
uma cafonice insuportável. Éramos imortais, donos de uma verdade que só nós conhecíamos,
preocupados apenas com a própria imagem e com o julgamento alheio.
O tempo, contudo, não faz pausas. De repente, somos nós conferindo o ponto do
assado no forno. Olhamos para o lado e vemos que a coluna do pai curvou, que a mãe
esqueceu o nome de um primo distante. A capa de super-herói deles cai no chão, revelando
humanos cansados. Agora, somos nós que a vestimos, segurando o teto para que ele não
desabe. As preocupações deixam de ser o próprio umbigo; outras vidas, menores e frágeis,
dependem das nossas mãos.
O álbum de retratos vira, então, um mapa de ausências. Aquele tio que contava as
piadas mais engraçadas silenciou. O avô, antes ao centro da mesa, virou moldura na estante.
Dói a falta concreta: nunca mais o gosto daquele bolinho de carne, temperado a olho, onde o
segredo não estava nos ingredientes, mas na pressão exata dos dedos amassando o pão
adormecido e o hortelã. Sente-se falta até do que incomodava: a tia alfinetando sobre o nosso
peso, uma indelicadeza que hoje soaria como música, só para tê-la ali de novo. Passado e
futuro dividem o mesmo pão à mesa da ceia.
Um dia, passamos pelo espelho do corredor e levamos um susto. Quem é aquela
pessoa de cabelos ralos nos encarando? O reflexo no vidro é o de um estrangeiro exibindo
uma topografia de invernos que a nossa memória, ainda descalça e distraída, esqueceu de
datar. A linha de chegada, antes invisível, agora aparece mais próxima no horizonte.
As fotos de hoje revelam espaços vazios, cadeiras desocupadas. A saudade aperta o
peito, a saudade de quando a sala estava cheia e a morte era apenas uma palavra distante e desconhecida. Talvez, ao olhar a imagem revelada, você perceba que, daquele primeiro
retrato, você é o único adulto que ainda respira.
Mas então, um choro de bebê corta o silêncio ou uma criança puxa sua calça pedindo
colo. Ao pegá-la no colo, você tem a certeza de que a capa agora é sua. Não para voar, mas
para abrigar o que resta da ceia antes que as luzes se apaguem. O flash dispara mais uma vez.
Os personagens mudaram, mas o ciclo permanece.
Share this content:

Publicar comentário