4° LUGAR – CRÔNICA NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
Retrato sem moldura
Caruanã Guatara Oliveira Frescurato
São João de Meriti/RJ
Eu guardo fotografias que não existem mais. Não porque foram perdidas, mas porque
nunca chegaram a ser reveladas. Momentos que passaram rápido demais para o clique, ou lentos
demais para caber num enquadramento. A vida, percebo agora, sempre teve esse problema com
molduras.
Na gaveta mais funda da memória, ainda vejo aquela fotografia 3×4: fundo azul
desbotado, rosto sério demais para a idade, cabelo domado à força, olhos tentando parecer
certos de alguma coisa. Era exigência para documento. Documento sempre pede que a gente
pareça alguém definitivo, mesmo quando ainda estamos em trânsito.
Eu não sabia quem era. Só sabia quem precisava parecer.
Naquela época, eu achava que crescer era escolher um caminho e seguir reto. Ninguém
me contou que a maioria das estradas humanas é curva, cheia de retorno, de desvios
improvisados, de placas caídas. Talvez soubessem, mas não tinham como explicar sem parecer
derrota.
A cidade me recebeu com esse tipo de silêncio que não é ausência de som, mas excesso
de indiferença. Eu vinha de um lugar onde as pessoas ainda se reconheciam pelo andar, pelo
jeito de sentar na calçada, pelo tempo que levavam para dizer bom dia. Aqui, ninguém tinha
tempo para nomear o outro. Os nomes eram substituídos por funções.
Aluno.
Estagiário.
Funcionário.
Número.
Aprendi rápido que não se sobrevive numa cidade grande sendo inteiro. A gente se
fragmenta para caber. Guarda sonhos na mochila, sotaques no fundo da garganta, opiniões no
bolso interno do casaco. Sobrevive quem aprende a parecer normal.
Mas normal é uma palavra perigosa. Ela não descreve; ela poda.
Nos primeiros meses, eu andava como quem pede licença ao chão. Observava tudo com
a cautela de quem ainda não sabe se pode pertencer. Havia gente demais e encontro de menos.
As ruas pareciam sempre apressadas, como se estivessem atrasadas para chegar a lugar nenhum.
Eu trabalhava, estudava, fingia planos. À noite, voltava para um quarto alugado, onde o
espelho insistia em devolver um rosto que eu reconhecia só pela semelhança. O corpo estava
ali. O nome também. Mas alguma coisa ficara pelo caminho.
Talvez fosse a ilusão.
A juventude, dizem, é feita disso: a certeza de que o mundo vai se abrir se a gente
empurrar com força suficiente. Só mais tarde entendemos que algumas portas não se abrem —
se escutam.
Foi numa tarde qualquer que reencontrei a fotografia.
Ela estava colada num documento antigo, quase esquecida. Olhei para aquele rosto
jovem demais para tanto peso e senti uma ternura estranha. Não vergonha. Não saudade pura.
Uma espécie de respeito.
Ele não sabia o que o esperava.
E, ainda assim, veio.
A fotografia não mostrava o medo. Mas ele estava ali, escondido atrás da postura rígida.
Medo de errar o tom de voz, de escolher errado, de não ser suficiente. Medo de ficar para trás
enquanto o mundo corria.
Engraçado como, naquela época, eu acreditava que o futuro era um lugar organizado.
Imaginava que, em algum ponto, tudo se alinharia: profissão, amor, casa, convicções. Um
quadro limpo, bem pendurado na parede da vida adulta.
Hoje sei: o futuro é um território em disputa.
Nada se organiza sozinho. Nada permanece no lugar. A gente aprende a equilibrar pratos
enquanto caminha.
O tempo, esse velho artesão, trabalha sem pedir opinião. Leva coisas que jurávamos
essenciais e deixa outras que nunca soubemos como carregar. Algumas perdas são tão
silenciosas que só percebemos anos depois, quando tentamos lembrar o nome de um sonho
antigo e ele não responde mais.
Mas também há encontros.
Pessoas que surgem como pequenas rachaduras no concreto da rotina. Um amigo que
escuta. Um amor que não promete salvação, mas presença. Uma conversa que acontece sem
urgência, como se o mundo pudesse esperar alguns minutos.
Esses momentos não rendem boas fotografias. São feitos de gesto, de intervalo, de
respiração compartilhada. Não cabem em 3×4.
Com o tempo, aprendi a desconfiar das versões oficiais de sucesso. Elas são sempre
muito parecidas, muito limpas, muito distantes da vida real. A maioria das histórias verdadeiras
acontece nas margens: nos trabalhos provisórios, nos afetos improvisados, nos dias em que nada
parece grandioso, mas algo insiste em continuar.
Resistir, descobri, não é gritar o tempo todo. Às vezes, é apenas não endurecer.
Ainda caminho pela cidade, agora com passos menos defensivos. Já não peço licença
ao chão. Aprendi que pertencimento não é aceitação total — é permanência com dignidade.
Guardo aquela fotografia não como prova de quem fui, mas como lembrança de quem teve
coragem de começar sem garantias.
O rosto sério demais hoje me sorri de outro jeito. Não porque tudo deu certo, mas porque
continuamos aqui. E isso, num mundo que exige desistências diárias, já é uma forma de vitória.
Se algum dia me pedirem outra fotografia 3×4, talvez eu não consiga ficar sério. Talvez
os olhos escapem do enquadramento. Talvez o fundo azul não segure tudo o que vivi.
Tudo bem.
Há coisas que não nasceram para caber em documentos.
Há vidas que só fazem sentido em movimento.
E há histórias — como a minha, como a sua — que seguem, mesmo quando ninguém está
fotografando.
Share this content:

Publicar comentário