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3° LUGAR – CRÔNICA NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

O caminho de Monita

Amanda Rosa Nunes Santos
São Bernardo do Campo/SP

Desde que me entendo por gente, meu mundo é o sertão. Acordo e adormeço com o cheiro de 

café passado no bule de ferro, o canto do galo e o farfalhar das galinhas procurando milho no 

terreiro. 

Minha mãe sempre dizia: 

Monita, não esqueça da bênção. 

Eu corria, pés descalços na terra quente, e respondia: 

Bença, mãe. Bença, pai. 

Era nosso jeito de agradecer a quem nos deu a vida. 

Ajudava a cuidar dos bichos e tinha sempre os olhos atentos aos ninhos das galinhas. Era eu 

quem buscava os ovos frescos, ainda mornos, para o café da manhã. A vida era simples, mas 

cheia de cor. 

Meu pai dizia que eu tinha “alma de passarinho”, sempre pronta para voar, mas coração de 

raiz, preso ao chão. Talvez por isso, mesmo sonhando com outros horizontes, nunca deixei de 

amar cada canto da roça. 

Com o tempo, deixei de ser a menina franzina que se escondia atrás da saia da mãe. 

Tornei-me moça. Diziam que eu tinha o cabelo e os olhos escuros como noite sem lua. Eu 

sorria sem acreditar, mas no fundo sabia que chamava atenção. 

Eu devia ter uns dezessete anos quando Abir apareceu de verdade no meu caminho. Eu já o 

conhecia de vista afinal, no sertão todo mundo conhece todo mundo, mas foi diferente 

naquele dia. Ele veio ajudar meu pai a consertar uma cerca que o vento tinha derrubado. 

Eu estava recolhendo lenha e, quando passei perto, ele me olhou com aqueles olhos firmes de 

quem já tinha visto muito sol. Sorriu meio sem jeito e disse: 

Monita, tu já reparou que teus olhos brilham mais que o céu daqui? 

Ri, sem graça. Baixei o rosto e continuei com a lenha nos braços. Mas dentro de mim, senti o 

coração tropeçar. 

No outro dia, ele voltou. Dessa vez, trouxe um punhado de frutas do sítio dele. Minha mãe, 

sempre desconfiada, cochichou para mim: 

Esse rapaz anda com conversa, viu? Olha lá se não é para coisa séria. 

E foi coisa séria. Abir não era homem de rodeios. Um mês depois, caminhando comigo pelo 

terreiro, disse: 

Monita, eu gosto de ti. Quero construir uma vida contigo. Pode ser? 

Meu rosto pegou fogo. Respondi baixinho: 

Pode, Abir… eu também gosto de ti. 

O amor cresceu como rio em tempo de cheia. Casamos pouco depois, com festa simples, 

sanfoneiro tocando até o sol nascer. O povo dançava forró batendo o pé na terra, e eu só 

conseguia olhar para ele, feliz de ser chamada de esposa. 

Nossa casinha foi feita no mutirão: meu pai trouxe telhas, meus tios ajudaram nas paredes, e 

Abir levantou cada canto com as próprias mãos. Quando vi tudo pronto, sorri orgulhosa: 

É simples, Abir, mas é nossa. 

Ele me abraçou e respondeu: 

– Simples nada, Monita. É nossa, e aqui vai ser o lugar mais feliz do mundo. 

Naquele instante, a casinha pequena parecia um palácio. Eu acreditava que ali começava o 

caminho da minha felicidade. 

E, por um tempo, foi mesmo. 

No começo, a vida na roça era até doce. Eu acordava cedo, tomava café forte com cuscuz e íamos juntos para a lida. Mas com o passar dos meses, meu corpo começou a pesar; a enxada 

parecia arrancar não só o mato da terra, mas minhas forças também. Eu sonhava com algo 

além, mas nem sabia o quê. 

Foi numa noite quente de verão que descobri. Mexendo no celular simples, achei um vlog. 

Uma moça falava da vida dela, como se fosse um diário. Pensei alto: 

Mas que interessante… será que eu também consigo? 

No outro dia, arrumei um canto da cozinha, apoiei o celular em cima de uma panela e gravei minha primeira receita. Falei do cheiro do feijão, do tempero da roça, das histórias da infância. Coloquei no ar sem expectativa, mas logo começaram a chegar mensagens: “Que 

lindo!”, “Lembra a comida da minha avó!”, “Faz mais, moça!” 

Aquilo acendeu em mim uma chama nova. O povo gostava do meu jeito, e aos poucos o 

canal foi crescendo. Eu já não precisava tanto da enxada. 

Abir, no entanto, começou a resmungar: 

Monita, tu perde tempo demais nesse celular. Isso aí não é trabalho de verdade. 

Respondi firme, mesmo com o coração apertado: 

Abir, é sim trabalho. Tu não vê? As pessoas gostam, estão até me pagando por isso. 

Ele balançava a cabeça, contrariado, mas esquecia a zanga quando eu punha um prato de 

baião de dois ou bolo de milho na mesa. 

A alegria maior veio quando engravidei. Nosso menino nasceu forte, saudável, e quando Abir 

o segurou no colo pela primeira vez, lágrimas correram pelo rosto dele. 

Ele tem teus olhos, Monita… 

Mas os dias foram passando e, junto com a alegria, veio o peso. Abir não aceitava me ver 

diante da câmera, falando para desconhecidos. 

Uma noite, ele falou com voz dura: 

-Não quero mais isso, Monita. Mulher minha não precisa se mostrar para o mundo. 

Olhei para ele, segurando nosso filho no colo, e respondi entre lágrimas: 

Eu não estou me mostrando, Abir. Eu estou trabalhando. Eu estou construindo um futuro 

para o nosso menino. 

Mas ele não ouviu. 

Eu estava cansada. O casamento, que antes me enchia de sonhos, agora era feito de silêncios 

pesados e expectativas não ditas. Abir, meu marido, sempre fora um homem bom, mas 

parecia viver num mundo que não enxergava o meu. 

Às vezes, eu sentia que falava sozinha. Outras, que não existia mais como mulher, apenas 

como sombra. Uma tarde, sentei na varanda e pensei: não posso mais. Meu coração chorava 

e, dentro de mim, crescia uma coragem estranha, quase rebelde. Foi então que tomei a 

decisão mais dolorosa da minha vida: 

— Eu vou embora, Abir. — Falei com a voz firme, mas as mãos tremiam. 

Como assim, Monita? — Ele me olhou perdido, como se nunca esperasse ouvir isso. 

Preciso respirar. Preciso ser eu. 

Arrumei minhas coisas, peguei o menino no colo e parti. 

Enquanto caminhava para longe daquela casinha que era nosso sonho, chorava como quem 

enterra uma parte de si. Eu amava Abir, mas precisava ser inteira — para mim e para meu 

filho. 

Os primeiros dias longe de Abir foram de puro luto. Eu ajeitei uma nova casinha, pequena, 

mas cheia de flores na janela e cheiro de bolo de milho no forno. O canal crescia cada vez 

mais, as pessoas acompanhavam minhas receitas e histórias, mas quando a câmera desligava, 

o vazio voltava. 

Deitava à noite, e as lembranças vinham como facas: nosso casamento simples com forró no 

terreiro, o primeiro beijo tímido, os almoços de domingo, os olhos de Abir marejados ao 

segurar nosso filho pela primeira vez. Eu chorava baixinho, pensando: 

Tudo perdido, meu Deus? 

Em uma quarta-feira chuvosa, o carteiro trouxe um envelope amassado, com meu nome 

rabiscado à mão. Parecia milagre; chuva no sertão e uma carta? Quem escreve cartas hoje em 

dia? Abri com as mãos trêmulas. Era de Abir. “Monita, por favor… eu gostaria que tu me 

escrevesses quais são tuas queixas, para eu entender o que devo fazer. Com amor, Abir.” 

Sentei na cadeira e chorei. Pela primeira vez, ele não falava para impor, mas para ouvir. 

Naquela noite, escrevi de volta. Falei das minhas dores, da solidão, da falta de apoio e do 

quanto eu precisava que ele me visse como parceira, não como sombra. Enviei a carta com o 

coração apertado, sem saber se teria resposta. 

Mas tive. Dias depois, Abir apareceu na porta. O rosto cansado, os olhos marejados. Ficamos 

em silêncio por alguns instantes, até que ele murmurou: 

Monita, eu quero aprender. Só não me deixa para trás. 

Senti meu coração disparar. Chorei, abracei-o e respondi: 

Então vem comigo, Abir. Mas vem de verdade. 

E assim, pela segunda vez, fizemos mudança. Caixas, sacolas, risadas nervosas e aquele 

recomeço cheio de esperança. 

A casa se encheu de novo com o riso do nosso filho, o cheiro da comida na mesa, o barulho 

da câmera gravando e, agora, o olhar cúmplice de Abir, aprendendo a respeitar meu caminho. 

O canal crescia, conquistava corações, mas o que mais me importava era que o nosso lar 

estava vivo. E eu aprendi que o amor verdadeiro não é ausência de conflito é coragem de 

ouvir, de ceder, de recomeçar.

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