1° LUGAR – CRÔNICA NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
O corpo em casa
Bruna Geordanna Matos
São Paulo/SP
Aprendi o corpo em casa, antes de aprender as palavras. Observava nas letras dos livros e nos vinis da minha mãe sobre a mesa, no rádio sempre ligado, enquanto ela torcia o pano no tanque. Repetia gestos antigos como quem acredita que o mundo só continua para quem
insiste.
Eu observava a porta, que sempre esteve ali. Media demais. Não era a porta que me assustava. Era o tempo que o corpo levaria para atravessar. Atravessei sem perder a casa. Meu corpo é minha casa, e levei-a comigo. Não é solidão. É carinho.
Na rua, tudo pulsava.
Subir a ladeira era a única forma de chegar. O asfalto brilhava com o calor do dia e não oferecia escolha. Às vezes pensei em ficar no meio, no entremeio das coisas. Mas o meio não fica. Ele só passa. O corpo seguia.
Foi na rua que encontrei o amor, o vento e o risco.
Dancei nas nuvens e chamei essa vertigem de amor. Queimei onde não havia saída. Queimei o barco comigo dentro para me obrigar a voltar às minhas águas. Descer foi o que restou. Reemergir foi necessário — ou seria o fim. Ainda assim, foi vida.
Um pouco antes do fim, entramos no restaurante como quem entra num intervalo. Um respiro breve. Ela estava linda. Não precisei pensar. O corpo soube no instante em que a viu.
Escolhemos ostras. O frio do prato, a concha aberta, o gesto cuidadoso de levar à boca. Primeiro a textura. Depois o sal. Depois algo que eu não sabia nomear. Havia desejo, cuidado e confusão. O clima mudava entre nós.
Não escolhemos prato principal. Nem sobremesa. Paramos no aperitivo daquele amor, como se cada sentimento pedisse um ritmo diferente. Não avançamos.
Pagamos a conta. A do restaurante e a emocional. A segunda, infinitamente mais cara.
Na rua, agora sem ela, o corpo retomou o passo. Talvez fosse brisa. Talvez fosse alívio. Algumas coisas não se fixam. Passam. E ainda assim, atravessam.
Na encruzilhada, nos reencontramos sem procurar. Estávamos com outras pessoas, outras narrativas. Decidimos continuar a noite juntas. Ela reconheceu caminhos, revirou atalhos, desenhou desvios onde eu ainda não a conhecia. O prazer veio cheio, sem pedir margem. Quando passou, o mundo ficou em silêncio por um instante.
Com tanta intensidade, o amor demorou a aprender horários. Exigia tudo para si. As mensagens atravessavam os oceanos sem garantir a chegada no entendimento. O amor tentava caber num intervalo de tela. Nem sempre cabia.
No bar cheio, entre música alta e risos alheios, o som cobria tudo, menos o que ardia entre nós. Todo mundo parecia feliz. Só a gente não. Ali entendi que o ciúme também é uma forma de solidão.
No trânsito lento, falávamos de trabalho e de sonhos que não sabiam onde encaixar. Às vezes estávamos juntas. Às vezes sozinhas no mesmo banco. Nenhuma decisão acontecia. Mas o tempo, sim.
Chovia quando ela disse coisas duras. A água caía sem piedade, por fora e por dentro. Meu corpo começou a se afogar. Entendi: não dava mais para amar quem me desmontava por dentro.
Disse basta com a voz fraca e o corpo inteiro. Não precisava me destruir para terminar. Se eu não terminasse, até onde iria?
Ela foi embora. Fiquei. Sozinha, tentando compreender como se ama alguém que nos destrói. Encerramos tudo com educação suficiente para seguir.
Algumas saídas não fazem barulho. O ar apenas fica respirável. Era isso.
Hoje, o vento acompanha. Há dias em que sou brisa. Há dias em que sou ventania. Não preciso escolher uma forma só. Aprendi a confiar no corpo. Ele sabe quando parar e quando seguir.
Não disputo espaço.
Ocupo o que é meu.
Sigo no tempo que me cabe, levando comigo o que ficou em casa.
Share this content:

Publicar comentário