5° LUGAR – CONTO NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
Trincas
André Souto Rezende
Brasília/DF
Noemi tinha nove anos e um pano.
O pano não era de nada. Restava. Fio solto nas beiras, cheiro de gordura antiga. Servia
para tudo. Cabia na mão como se tivesse aprendido o tamanho exato da palma.
Passou o pano na testa de Damiana. O suor vinha pouco. O pó ficava. Limpava devagar,
não por delicadeza, mas porque a pele da mãe parecia mais fina a cada dia.
A trinca do quarto começava no canto do teto e descia até o rodapé. Depois do último
tremor, estalava de noite. Um som curto, seco, como coisa mexendo por dentro da parede. Os
copos vibravam na prateleira mesmo sem vento.
O poço também tinha mudado. A água vinha turva. Às vezes com gosto de ferro. Às
vezes com um silêncio parado na superfície, como se esperasse antes de descer.
Ninguém comentava.
Noemi esvaziava o pinico devagar. Lavava no tanque com o resto d’água. Voltava com
ele seco. Sempre no mesmo lugar. O gesto repetido dava à casa uma aparência de ordem.
A casa era de adobe assentado direto na terra. Quando o chão estremecia, não era queda.
Era passagem. Algo atravessava por baixo e seguia.
Orestes guardava numa caixa de sapato, debaixo da cama, um capacete amarelo rachado
e um crachá quase apagado. Noemi já tinha visto. Não mexia.
O capacete guardava um pó claro preso na fenda da rachadura. Não era poeira comum.
Não era terra da casa. Era fino demais. Entrava na unha e ficava. Uma vez Noemi esfregou com
a ponta do pano. Espalhou, mas não sumiu. O nome no crachá ainda se lia se inclinado contra
a luz. A fotografia mostrava Orestes mais ereto, o queixo duro, o olhar firme demais para lente.
Ela comparou com o homem que voltava da horta sem levantar os olhos. Guardou a diferença.
Ele dizia que era do tempo em que “a firma prometia”.
Depois do morro branco cortado, a firma. De lá vinham caminhões e um pó fino que
pousava sobre as folhas, sobre os telhados, sobre a água aberta nos baldes.
Depois do tremor, homens de colete mediram parede.
— Risco estrutural.
Anotaram. Foram embora.
Deixaram um papel dobrado sobre a mesa.
Orestes não abriu.
Noemi escolheu o caminho mais comprido para buscar água. O curto passava pela
escola escorada por troncos grossos demais para serem provisórios. Os troncos inclinavam um
pouco mais a cada semana.
Desceu até o antigo riacho.
Restava um filete.
Afundou a lata. A água subiu turva. Com cheiro que não era só de barro. Ficou olhando
o redemoinho fechar devagar antes de erguer o balde.
Na volta, parou diante da casa de Izolina.
Chamou.
Nada.
Empurrou a porta com o ombro.
O caibro tinha cedido. O lençol escuro no chão. Uma dobra de tecido ainda presa na
quina da cama.
Ficou parada.
Podia chamar alguém.
Não chamou.
Quando voltou, o papel ainda estava sobre a mesa.
Passou o pano ao lado dele. O pano arrastou pó e deixou uma faixa mais clara na
madeira.
Leu devagar: interdição preventiva. Desocupação imediata recomendada. Assinatura
técnica no fim.
Orestes entrou com a enxada no ombro.
Olhou o papel.
Olhou a trinca.
Não pegou.
Saiu pro quintal.
Noemi dobrou o papel.
Sentiu o peso leve demais.
Poderia entregar à mãe.
Guardou no bolso do vestido.
O papel encostou na coxa como se tivesse temperatura própria. Enquanto varria o chão,
sentia o canto rígido bater contra a pele. Pensou em tirar. Pensou em rasgar. O volume era
mínimo sob o tecido.
Ninguém procurou.
À tarde, quando o chão vibrou outra vez, levou a mão ao bolso por instinto, como se
segurasse algo que pudesse escapar, ou como se o bolso pudesse segurar a casa inteira.
Naquela noite, a trinca abriu meio dedo a mais.
O pó caiu sobre o colchão.
Noemi limpou antes que Damiana visse. Sacudiu o pano do lado de fora, olhando pro
morro cortado que permanecia branco demais sob o sol.
Não disse nada.
O solavanco veio no fim da tarde seguinte.
Não foi grande.
Foi fundo.
Duas telhas caíram pra dentro da cozinha.
Bateram palma no portão.
— Tem que sair.
Damiana ficou no batente. A barriga alta, redonda, imóvel como se ainda pudesse
sustentar o teto.
— Nós vamos.
Orestes rodou a chave duas vezes. Guardou no bolso. A chave fez um som pequeno
contra o capacete dentro da caixa quando ele passou pelo quarto.
Noemi sentiu o papel dobrado encostar na perna.
Não tirou.
Na praça, o sino da matriz estava parado fazia meses. O vento fazia a corda bater leve
contra a parede.
A capela menor tinha cadeado.
Orestes hesitou. Damiana se dobrou com as contrações, apoiando as mãos na barriga.
O marido saiu dizendo que buscaria a parteira.
Noemi pegou uma pedra.
Quebrou o vidro.
Entrou primeiro.
Arrastou bancos. Fez espaço no chão. O pó levantou e depois assentou como se também
esperasse.
Quando a contração veio mais forte, Damiana se agachou.
Noemi segurou o pano aberto nas duas mãos.
O corpo da irmã escorregou quente pro tecido.
Chorou curto.
O pano ficou pesado.
Sangue. Leite. Pó.
Do lado de fora, um caminhão passou pela estrada do pico cortado.
O chão vibrou leve sob os joelhos de Noemi.
Ela não olhou pra entrada.
E permaneceu.
A janela quebrada estalou quando Orestes voltou.
Ele ficou parado no meio do passo, como quem entra em lugar que já não reconhece.
As duas meninas estavam coladas ao corpo de Damiana.
Mamavam em silêncio, os olhos fechados, como se o mundo ainda pudesse ser pequeno.
Lá fora, um som atravessou a praça.
Não era alto.
Era fundo.
Noemi sentiu o papel dobrado roçar na perna.
Não levou a mão ao bolso.
Olhou pra parede atrás do altar.
Uma linha fina subia pelo reboco, devagar, como se procurasse saída.
O pó começou a cair.
Caiu sobre o pano aberto em suas mãos.
Ela deixou.
Orestes se aproximou sem falar.
A chave escorregou dos dedos e tocou o chão com um som breve demais pra quebrar
nada.
O estalo veio outra vez.
A linha avançou pelo teto.
Damiana ajustou o corpo das filhas junto ao peito.
O leite desceu.
Sem ruído.
Sem rachadura.
E continuou.
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