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4° LUGAR – CONTO NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

O Que Não Lembro

Evelyn Oliveira de Siqueira
Passos/MG

Um cheiro metálico paira no ar. Um vento frio assovia pelas frestas da janela.
Quando abro os olhos, me deparo com um cenário familiar. “O apartamento de
Sefi…?” A sala parece diferente. O sofá estava torto; a mesa de centro parecia mais
baixa do que o normal. Quadros quebrados, pedaços de madeira e vidro espalhados
pelo chão. O ar estava denso, transmitindo uma sensação de incômodo e
desconforto.
Quando olho para o lado, lá estava ela. Sefi estava com os olhos fechados
como se estivesse em um sono profundo e sereno — porém, seu corpo estava
pálido e gelado. Sua vida já havia se esvaído.
Sem memória do que aconteceu ou de como cheguei ali, decidi investigar a
cena diante de mim. Ao tentar dar um primeiro passo, senti tudo girando e minha
visão começando a ficar embaçada; uma dor de cabeça fortíssima me fez apoiar na
mesa de canto. Minhas chaves estavam jogadas no chão à frente. Quando me
abaixei para pegá-las, tive um flash de memória… Sefi havia feito uma chave
reserva. Ela dizia que eu poderia dormir ali sempre que precisasse.
Ao voltar para a realidade, percebi que as mãos de Sefi estavam agora
esticadas em minha direção. Uma dor forte e uma sensação quente no meu
tornozelo me fez perceber cortes que ainda sangravam; pareciam marcas de unhas.
Minha cabeça latejava, claramente me fazendo ter alucinações… Eu tinha
certeza de que seu corpo estava sem vida — como seria possível Sefi se mover?
Esfreguei os olhos e tentei me concentrar. Fui até o banheiro com a intenção de
lavar meu rosto e procurar algo para fazer um curativo. Peguei um analgésico e uma
bandagem no armário.
Quando ergui o olhar para o espelho, lá estava ela, me abraçando. No lugar
de seus olhos havia somente o vazio, mas sua expressão era sorridente e
carinhosa. Senti uma vontade imensa de vomitar, mas tudo que saiu foi sangue. Ao
olhar o espelho novamente, ela havia desaparecido. Percebi também que minha
boca sangrava: vários de meus dentes estavam quebrados.
Voltando até a sala, seu corpo estava exatamente como havia visto quando
acordei. “O que está acontecendo aqui?”
Um barulho de metal batendo no chão roubou minha atenção; vinha da
cozinha. Uma cena familiar e reconfortante surgiu: Sefi estava usando um avental

bege por cima de seu clássico pijama roxo com desenhos de ursinhos. O cheiro do
alho dourando, o barulho da carne ao tocar a frigideira, o vapor do molho de tomate
quente, o aroma do queijo derretido junto com a onda de calor trazida pela abertura
do forno… Ela estava preparando meu favorito: lasanha.
A sensação de nostalgia me fisgou e, por um momento, esqueci de tudo ao
redor. Tentei me aproximar, abraçá-la como eu fazia… mas tudo se desfez em uma
fumaça densa e negra.
A cozinha agora era cinzenta, sem graça. Pratos quebrados, cacos de vidro
na pia, rosas já escuras e sem vida, ainda dentro dos vasos. Um odor forte de carne
queimada me fez fitar o forno, que estava ligado. Desliguei o gás e peguei um pano
para abri-lo.
Meu corpo recuou impulsivamente, me fazendo cair sentado — mas meus
olhos continuaram fixos no que queimava ali dentro. A mão de Sefi estava
carbonizada, com o punho fechado em torno de algo. Minha curiosidade falou mais
alto; puxei a mão e forcei abri-la, até que ela se desfez em cinzas, revelando o rótulo
de um Bordeaux.
“Desde quando Sefi bebia?”
Senti uma dor ardida nos dedos, eles não estavam só queimados — estavam
totalmente pretos e sem quase nenhuma sensação ao toque.
O despertador começou a tocar, embora a luz da lua ainda atravessasse as
cortinas da cozinha. Me direcionei ao quarto na intenção de cessar aquele barulho
irritante. A lâmpada estava falhando, e as oscilações da luz revelavam algo
perturbador: o corpo de Sefi agora estava suspenso, preso por uma corda prestes a
arrebentar.
Uma de suas mãos agarrava o laço, como se tentasse diminuir a pressão em
seu pescoço; a outra segurava o vinho sem rótulo. Sua expressão era horrenda…
Parecia gritar por ajuda, tomada pelo medo e pelo desespero.
Aquilo me fez virar o rosto, tentar fugir… Minha visão agora se voltava para a
sala, onde o corpo de Sefi estava sentado em uma das poltronas, com o braço
apontado para o quarto.
O pânico me dominava. Eu não compreendia o que era realidade ou
paranóia. Meu ar sumia, minha respiração falhava… Sentia minha própria garganta
sendo apertada, como se fosse parar de respirar a qualquer instante.

Caí de joelhos. Tentei tocar meu pescoço, tentei me soltar de amarras
invisíveis, mas não tinha sensação alguma. Minhas mãos estavam cada vez mais
pretas. Corri para o banheiro e, no espelho, vi a marca deixada pelo medo. Já não
sabia se respirava ou não; só sabia que a dor não existia mais.
O corpo de Sefi ainda aponta para o quarto. Ele parecia se mover pela casa,
tentando me falar algo importante que eu havia esquecido.
Ao entrar no quarto novamente, tudo estava completamente normal —
impecável eu diria. Rápidas lembranças de nós deitados juntos, lendo, brincando,
sorrindo, chorando…
Batidas na janela me chamaram a atenção. Uma sombra negra, estática, me
encarava. Não havia rosto, nem corpo — apenas a sugestão de uma forma
humanóide. Ao me aproximar, aquilo correu… e eu corri junto, tentando alcançá-la.
Fui até a cozinha, destranquei a porta e olhei a varanda. Nada. Nada, nem
ninguém. Apenas o silêncio vazio da noite. Eu estava perdendo minha sanidade.
O vento gelado me fez arrepiar. No céu não havia estrela alguma — um breu
completo.
“O que estou fazendo aqui?”
“Como vim parar aqui?”
“O que Sefi tem a ver com tudo isso?”
“Por que não sinto tristeza?”
“Eu realmente a conhecia?”
“O que está acontecendo?”
“Estou ficando paranóico?”
Nada faz sentido.
Meus pensamentos foram interrompidos por barulhos vindos da porta da sala.
“É verdade… Eu nunca tentei sair daqui.”
Fui até lá devagar — meu corpo todo doía, eu já não tinha forças físicas nem
mentais para continuar tentando entender.
“Talvez seja a polícia.”
“Talvez eu tenha a matado.”
“Talvez nós não éramos tão próximos quanto eu lembrava.”
“Talvez…”
O som de chaves fez a porta destrancar e abrir. A luz forte do corredor fez
meus olhos doerem, me cegando por um breve momento.

Quando recobrei a visão, percebi que era ela entrando. Estava totalmente
vívida, deslumbrante. Provavelmente tinha trabalhado até tarde novamente — ela
sempre pegava turnos extras para me ajudar, quase não voltava pra casa.
Vi seu rosto mudar de um sorriso para um terror extremo.
— Nãaaaao! Por favor, não! O que você fez?!
Não entendi o motivo de suas palavras… até perceber que, se Sefi estava ali,
viva, então aquele corpo que me acompanhara pelos delírios não podia ser o dela.
Tentei formar palavras, sons… mas nada saiu da minha boca.
Quando me virei, vi a mim mesmo no centro da sala. Meu corpo estava
apodrecendo. Ela segurava minhas mãos necrosadas e chorava incansavelmente.
“O que eu fiz?”
“Me perdoe, Perséfone…”

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