3° LUGAR – CONTO NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
O Lobo
Ivana Mayrink
Belo Horizonte/MG
Havia um cansaço que não vinha do meu corpo, mas da persistência em ser leve. Uma
fadiga insidiosa, tecida nas malhas de uma rotina que exigia de mim a gentileza e a ausência
de garras. Busquei o caminho de terra batida nas imediações da cidade, essa fuga para a
natureza que é sempre a ilusão primária do homem urbano. Precisava de ar, de silêncio, de um
reequilíbrio forçado que prometia a anulação do que em mim era demasiado. A trilha ascendia
em espiral, e eu a seguia com a disciplina de quem tenta se salvar de si mesma, de quem
almeja a pureza de um céu que, suspeitava-se, jamais existiu. A mata era densa, um verde
indiferente à minha pequena tragédia pessoal. A cada passo, eu tentava despir-me do peso das
convenções, mas a alma, teimosa, apenas acumulava o pó da jornada insatisfatória. E se a paz
que eu procurava fosse, afinal, a ausência total de mim? E se essa busca por “equilíbrio” fosse
apenas a covardia de não querer encarar o que me fazia forte?
A trilha findara numa barreira de pelo e negrume. O lobo. Imóvel. A massa de carne e
instinto era uma esfinge erigida contra o sol frágil que mal penetrava a copa das árvores. Eu
parara. Não por decisão, mas por uma súbita e absoluta dissolução da vontade. Os músculos,
antes tensos na busca insípida por um “equilíbrio” que me fora ensinado, agora jaziam inertes,
rendidos à inexorabilidade daquela presença. Seus olhos. Ah, aqueles olhos eram o próprio
abismo — duas esferas de ônix polido, sem íris perceptível, que não me fitavam com fome
carnal, mas com uma interrogação gélida. Não eram os olhos de um predador; eram os olhos
de um juiz, ou, pior, de um espelho desprovido de cortesia.
Eu ali estava, à mercê. O terror inicial, aquele pânico histérico que se esvai pelos
poros, foi subitamente substituído por uma lucidez cortante, quase indecente. O que era o
medo, afinal? Uma convenção social? Uma etiqueta para a alma? Olhei para ele, para o seu
focinho largo e silente, e senti uma repugnância que não era dirigida ao animal, mas à minha
própria fragilidade cultivada. Naquele instante, a fronteira entre o eu que caminhava em busca
de paz e o lobo que impedia o avanço se esboroou. Eu vi, na densidade daquele pelo marrom
— cor de terra úmida, cor do que jaz escondido sob a superfície —, o quanto eu havia
castrado a minha própria potência. A trilha era uma fuga. Eu não procurava o equilíbrio; eu
fugia do desequilíbrio necessário.
O lobo não me mataria, eu soube com a certeza que só o não-pensamento confere. Ele
apenas retinha o caminho até que eu reconhecesse que a força para prosseguir não estava na
leveza etérea que eu perseguia, mas na brutalidade honesta da qual eu tanto me esquivava. O
lado sombrio. Não era a maldade, mas a integridade selvagem. A capacidade de morder para
proteger, de uivar para se fazer ouvir, de ser indiferente à aprovação. Uma vitalidade crua,
ancestral, sem os vernizes da civilidade. E aquela força, aquela obstinação sombria, residia em
mim. Estava ali, trancada sob camadas de “bom comportamento” e de uma busca fútil pela
pureza.
O lobo, meu reflexo indomável, era a prova de que eu era forte porque eu era, também,
escura. Viva, porque selvagem. E então, num gesto que me pareceu a maior audácia da minha
vida, eu o encarei de volta. Sustentei o negrume de seus olhos. E, em lugar de me encolher, eu
o integrei. Sim, pensei, eu também sou este lobo. E é ele que me mantém de pé. Um tremor
perpassou a carcaça do animal. Não de ameaça, mas de cumprimento. O desafio silencioso
estava vencido.
O lobo se moveu. Não um salto, nem uma fuga. Foi uma oscilação lenta, quase
desinteressada, de uma forma que tinha sido estática para uma fluidez imperceptível. Ele deu-
se à mata, e o marrom se esvaiu no verde e no castanho, restando no ar apenas o cheiro
selvagem, denso, a fragrância de uma vida que não negocia a própria existência.
Eu não chorei. Eu não tremi. Havia uma nova solidez nos meus ossos, uma certeza
recém-adquirida que não era confortável, mas era irrefutável. O “equilíbrio” que eu viera
buscar era a máscara branca que eu usava para esconder o vigor escuro que acabara de me
salvar de mim mesma. Que ironia sórdida: a plenitude não residia na paz solar, mas na
aceitação da minha visceralidade, da minha capacidade de ser a floresta densa e, se
necessário, o predador.
Retomei a caminhada. Os pés não mais tateavam o chão. Eles afirmavam o solo, cada
impacto era uma declaração concisa da minha permanência. Era como se o mundo tivesse
perdido a polidez desnecessária. As folhas secas sob minhas solas não eram mais obstáculos,
e sim a matéria da vida e da morte que eu finalmente ousava tocar. O sol, ao trespassar as
folhagens, parecia agora mais franco, menos benevolente. E eu soube que a trilha havia
terminado não na exaustão física, mas no desvelamento.
Comecei a descer, e cada passo me afastava da verdade nua da montanha e me
precipitava de volta à hipocrisia morna da cidade. O conflito não estava resolvido, estava
apenas internalizado. A questão não era mais se o lobo me deixaria passar, mas se eu me
permitiria ser o lobo na civilidade. A dúvida, agora, não era de fraqueza, mas de manejo.
Como conjugar o uivo silencioso com o cumprimento social? Como abrigar a ferocidade
essencial sem destruir a ponte que me ligava aos outros? A reconexão não era com uma
versão melhorada de mim, mas com a totalidade crua que eu havia negligenciado por
conveniência.
Cheguei à orla da mata. Os primeiros sinais da cidade eram agressões auditivas: o
ruído de um motor, a tagarelice distante. Respirei fundo o ar que já não era puro, mas que
continha a complexidade do viver. Eu era uma estrangeira que regressava de um país onde a
moeda de troca era a alma. Entrei no meu carro. Olhei para o retrovisor. Os meus olhos eram
os de sempre, mas a retina tinha guardado a densidade escura do encontro. Havia algo ali que
não se podia desfazer: uma paciência perigosa, a marca indelével do instinto que, uma vez
reconhecido, não se apaga.
Saí do carro. A porta da residência se abriu com um ranger familiar, esse sussurro da
rotina que a partir de agora soava como um ruído estranho. A casa estava vazia, ou, para ser
mais precisa, desocupada pela presença de outros; estava cheia, abarrotada, da minha própria
densidade. Dirigi-me ao banheiro, um ambiente de ritual e despojamento. Abri a água do
chuveiro. A torrente quente não era apenas para limpar a poeira da trilha, mas para dissolver
os contornos da mulher que eu havia sido. Despi-me lentamente, e a pele, que retinha o frio da
montanha e a tensão do encontro, era agora uma superfície nova, mais atenta.
Fechei os olhos sob a cascata. A água escorria pelo meu rosto, e a mente se abriu, não
em pensamentos lineares, mas em fragmentos luminosos e viscerais. O lobo. Ele não fora uma
alucinação poética. Ele fora uma necessidade urgente que se materializou para me confrontar
com a minha própria substância. Eu havia procurado o céu limpo — o silêncio sem conflito, a
luz sem sombra. E a trilha me havia oferecido a terra bruta e a face escura da minha
sobrevivência. Senti o calor da água e a frieza do encontro em simultaneidade. Não eram
opostos que se anulavam, mas sim polaridades que se afirmavam mutuamente.
E ali, sob o ruído brando da água, a palavra final se formou em minha consciência com
a clareza implacável de uma equação matemática: Existir é ser, ao mesmo tempo, céu limpo e
lobo feroz. O céu limpo é a lucidez tranquila, a vastidão para onde se olha em busca de
sentido. O lobo feroz é a garra da vida, o instinto sem eufemismos, a parte que não cede à
domesticação. Eu precisava da serenidade para entender, mas precisava da ferocidade para
agir e perdurar. Renunciar a um era mutilar a totalidade do meu ser. Eu não regressava
equilibrada, mas sim completa. A jornada havia terminado não na descoberta da paz, mas na
aceitação da guerra íntima que me definia.
Desliguei o chuveiro. O silêncio voltou, mas era um silêncio povoado. Olhei para meu
corpo nu, refletido no vidro embaciado. Não havia mais a busca ansiosa, a culpa velada.
Havia apenas uma mulher recém-inaugurada, que sabia que sua maior força residia na
conjunção paradoxal do sublime e do brutal. E a partir daquele instante, ser deixava de ser
uma pergunta e se tornava uma afirmação constante, tensa e vital.
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