×

2° LUGAR – CONTO NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

Amélia

Jaqueline Garbuggio Egias
Maringá/PR

Em Santa Aurora, as tardes tinham um ritmo próprio. O cheiro de café recém-passado
escapava pelas janelas e as conversas atravessavam as calçadas como se o tempo ali
caminhasse mais devagar.

Foi nesse lugar que viveu Amélia.

Seu nome nunca apareceu em jornais. Em sua casa não havia diplomas nas paredes nem
fotografias de ocasiões importantes. Ainda assim, quem a conhecia percebia nela algo
difícil de explicar: uma inquietação tranquila, como se seus pensamentos estivessem
sempre um pouco além do que a cidade mostrava.

Enquanto muitas mulheres passavam as tardes entre receitas herdadas das mães ou
bordados destinados a enxovais, Amélia ocupava o tempo de outra forma.

Ela lia.

A biblioteca municipal era pequena, com estantes antigas e livros de páginas
amareladas. Ali, Amélia passava horas. Lia sobre ciência, política, descobertas e cidades
que ninguém em Santa Aurora conhecia.

Às vezes fechava o livro e permanecia em silêncio por alguns minutos, como se as
páginas tivessem aberto dentro dela uma estrada invisível.

Nem todos entendiam.

Na cidade, dizia-se que mulher que pensava demais acabava se afastando da vida que
deveria levar. Alguns falavam em tom de brincadeira; outros com crítica mal disfarçada.

Amélia escutava.

E sorria.

Depois voltava para os livros.

Foi desse hábito que nasceu uma ideia que muitos acharam estranha.
Em uma das salas de sua casa, Amélia afastou os móveis, abriu as janelas e convidou
algumas meninas da vizinhança para ler com ela.

No primeiro sábado apareceram três.

Na semana seguinte vieram cinco.

Meses depois, a sala já não parecia suficiente. Algumas sentavam no chão, outras nas
cadeiras da cozinha. Sempre havia alguém nos degraus da escada, equilibrando um livro
no colo.

As histórias não terminavam quando a leitura acabava.

Elas continuavam nas perguntas, nas conversas, nas ideias que surgiam de repente.

— Vocês sempre terão escolhas — dizia Amélia com calma. — Nunca se esqueçam
disso.

Nem todos aprovavam aquelas reuniões. Alguns homens comentavam que aquilo não
era coisa para moças. Pensar demais, diziam, podia atrapalhar o destino de uma mulher.

Amélia nunca discutia.

Simplesmente continuava.

Os anos passaram.

As meninas cresceram e seguiram caminhos diferentes. Houve quem se tornasse
professora, quem escolhesse a medicina, quem abrisse um pequeno negócio. Algumas
foram estudar em outras cidades.

Uma delas, muitos anos depois, começaria a escrever livros.

Sem alarde, Santa Aurora foi mudando.

Quando Amélia já estava velha, com os cabelos completamente brancos, mantinha um
costume antigo: sentar-se na varanda no final da tarde.

Dali observava a rua, as casas e o movimento tranquilo da cidade.

Certo dia, uma de suas antigas alunas voltou para visitá-la. Tornara-se pesquisadora e
estava acostumada a falar para auditórios cheios.

Sentaram-se lado a lado na varanda.

Depois de algum tempo olhando a rua, a visitante perguntou:

— A senhora imaginava que tudo isso aconteceria?

Amélia riu baixo.

— Não — respondeu. — Nunca tive tanta certeza assim das coisas.

Seu olhar voltou para a rua.

Duas meninas caminhavam devagar pela calçada, discutindo animadamente sobre um
trabalho da escola. Uma delas carregava um livro aberto nas mãos e gesticulava
enquanto falava.

Amélia observou a cena com atenção tranquila.

Então disse:

— Eu só abri a porta.

A visitante não respondeu.

Apenas seguiu o olhar da velha professora até as duas meninas que continuavam
andando, rindo alto, sem perceber que também faziam parte de uma história iniciada
muito antes de nascerem.

O vento da tarde passou pela varanda e folheou lentamente o livro esquecido no colo de
Amélia.

Na rua, as meninas dobraram a esquina.

E seguiram.

Share this content:

Publicar comentário