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1° LUGAR – CONTO NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

A Orelha

Marina Barrichello Marone
São Paulo/SP

No quarto, Harmonia chorava. Esticava as mãos rechonchudas para o alto, apertando
o ar com os dedos quase sem unhas. A boca, inundada, aberta. Do canto dos lábios escorriam
filetes de saliva. Os olhos espremidos em duas linhas de cílios loiros. Ela não sabia,
exatamente, o que queria. Não é como se a fralda estivesse cheia. Tampouco seu estômago,
do tamanho de uma saboneteira, estava vazio. Mas ela gritava, forte, soprano. Na décima
contração do diafragma para apertar os pulmões, as fezes saíram junto com o choro. Pronto.
Em outro canto da casa, no quintal, a mãe fumava, acariciando o filhote, Nounouse.
Olhava para as árvores escuras do outro lado da cerca. O pai, sentado numa cadeira de praia,
lia um livro. Não se mexiam: pareciam estátuas de pedra-sabão. O homem não hesitava na
linha quando o berro da filha coçava suas orelhas. Assim que a mãe acabou o cigarro, foram
se deitar. Subiram a escada com o filhote de gato no colo e passaram reto pelo quarto do
bebê.


— …aí a professora disse que eu fui muito bem na prova e que a olimpíada de
matemática vai ser na…
— Me passa o sal? — a mãe pediu, olhando o marido. Harmonia até tentou pegar o
saleiro ao ser interrompida, mas o pai foi mais rápido. Enquanto a mulher temperava a salada,
a menina continuou:
— … a olimpíada vai ser na quarta e eu preciso de…
— Nounouse já comeu? — o pai ponderou, em voz alta.
— Já. Mas ele gosta mais da outra ração, a de legumes e salmão. Ele anda meio chato
pra comer. Anota na lista do mercado.
A adolescente espalhou o arroz e arranhou o prato com o garfo. Nounouse miou,
debaixo da mesa. Os pais sorriram, imbecis. Harmonia se levantou e foi para o quarto, o rosto
quente. Trancou-se, deitou na cama e soluçou, entre engasgos. Encolheu o corpo fino no
formato de uma semente e encarou a parede rente a cama. Harmonia contou os padrões do
papel, os olhos embaçados. Gostava de números. Eram quinze listras verticais, intercaladas
por linhas azul bebê. Em cada recorte de papel branco haviam flores enfileiradas. Cada flor
tinha treze pétalas rosa. Se, em cada parede, haviam quinze listras brancas e, em cada, listra,

dez flores de treze pétalas… Então haveria cento e cinquenta flores, que vezes quatro dá
seiscentos que, vezes treze pétalas dá sete mil e…
Fechou os olhos.


Harmonia caminhava em um campo de sete mil e oitocentas pétalas rosas em sessenta
listras brancas. Do seu olho pingava uma lágrima brilhante a cada dez segundos. Eram seis
lágrimas por minuto. Trezentos e sessenta lágrimas por hora. E então, uma voz, de baixo pra
cima, soprando seus cabelos:
— De agora em diante, você será mais feliz.


Abriu os olhos. Uma flor de treze pétalas. O papel de parede, quase tocando seu nariz.
Harmonia afastou o rosto, confusa. Era manhã. E a parede tinha inchado.
Era díficil explicar. Mas, uma das flores do papel de parede estava grávida. Um
calombo, do tamanho de uma bola de golfe, projetada ao lado do seu travesseiro. Harmonia
começou a cutucar a celulose com a unha. Com algum esforço, fez um buraco. Enfiou o dedo
indicador lá dentro.
Sentiu uma coisa macia. Fez movimentos circulares. Tinha extremidades
arredondadas, partes mais e menos moles. Era quente. Um arrepio correu da lombar até a
nuca. Sentiu medo. Correu pra cozinha. Pegou uma faca e continuou a cavucar. Enfiou a
lâmina com cuidado e serrou o papel. Abriu.
No meio do cimento cru, como um cogumelo ou um mofo, havia uma orelha adulta.
Era cabeluda e pálida. Harmonia sufocou o grito, caindo da cama. Titubeou até a porta, a faca
na mão. Tentou girar a chave, mas tremia:
— Mamãe! Papai! — ganiu, alto. — Socorro!
Não houve resposta. Respirou fundo, de costas para a porta trancada. Apontou a faca
de serrinha para o desconhecido e se aproximou, os ombros pro céu, a mandíbula dura. A
orelha não tinha para onde fugir. Apoiou o metal no lóbulo solto.
Ela se dobrou, apavorada. Os pelos escuros eriçaram, trêmulos. Ficou vermelha, cheia
de sangue. Estava viva. Harmonia sentiu receio:
— Você me ouve?


— Sabe, Orelhinha, — Harmonia passava um cotonete úmido na concha da orelha,
limpando a cera amarela. Na rádio da penteadeira tocava “Xuxuzinho” de Rita Lee — …na
última prova de física eu tirei oito e meio. Mas eu falei com a professora e… — içou um
pano umedecido e esfregou atrás da hélice cartilaginosa — … eu consegui aumentar pra
nove.
A orelha, agora Orelhinha, sacudiu com a notícia. A menina se levantou da cama para
pegar a caixa de bijuteria:
— Qual brinco você quer usar hoje?
Os dois furos de Orelhinha, finalmente, tinham se recuperado da infecção e do pus.
Uma agulha em brasa e uma madrugada de tédio tinham sido a aventura das duas há alguns
meses.
Harmonia, desde a descoberta, andava assim: corada, com brincos grandes, falante.
Passava horas trancada no quarto, fazendo cálculos e lendo Crepúsculo em voz alta, ouvindo
rock progressivo e música clássica, guardando dinheiro para joias hipoalergênicas. Depois de
pendurar duas argolas prata com penduricalhos, a adolescente beijou Orelhinha e sussurrou:
— Te amo.
Escondeu o segredo atrás de um quadro de paisagem campestre e colocou a mochila
no ombro. Bateu a porta, mas ela não fechou completamente. Uma fresta. De repente, uma
pata felpuda cutucou o vão, até que houvesse espaço para espremer o corpo para dentro.


A menina chegou da escola, sorrindo. Os pais estavam no quintal. A mãe fumava. O
pai, como sempre, lia na cadeira de praia. O gato dormia aos seus pés. Assim que entrou,
Harmonia berrou, como nunca tinha berrado antes. O homem não hesitou na linha. A mãe
não tirou os olhos das árvores verdes. Nounouse suspirou, lambendo os bigodes vermelhos.

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