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2° lugar – PROSA ESTUDANTIL – CONTO – INTERMEDIÁRIO – Colégio Batista Mineiro – Unidade Ouro Branco – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

Irmãos de armas

Gabriela Alcântara Fonseca
2ª série

Crescemos juntos. Éramos irmãos biológicos, mas a chance de sermos criados por nossa família nos foi tomada. Ao invés disso, fomos moldados desde nossos primeiros anos por um grupo de marechais do Exército. Eram cinco. Apesar de ter pouquíssimas memórias de tal período, lembro-me perfeitamente de cada um deles. Eram aterrorizantes, frios, implacáveis, precisos e não tinham qualquer remorso das ações horrendas que tomavam para cumprir seus objetivos. Poderia descrevê-los, mas não o farei, tanto porque me dói quanto porque tal escória não merece a honra de uma descrição.

Meu irmão tinha por volta de seis anos, eu tinha quatro. Por ser mais velho, a maior parte das expectativas eram colocadas nele, e seu tratamento era mais intenso, mas isso não significava que o meu era leve. Todos os dias, os homens nos davam horas de aulas e lições, nos ensinavam sobre a guerra, suas razões, armamento, suprimentos, formações. Nos ensinavam como governar, liderar e intimidar. Quando já éramos rapazes, passaram a nos levar para as batalhas, nos apresentaram à morte, ao sangue, companheiros cruéis que nunca nos abandonaram. Por fim, ensinaram-nos a como causar tal morte e tal sangue.

Havíamos nos tornado um projeto perfeito. Jovens, despidos de vontade própria, talhados de acordo com suas vontades, altamente treinados e competentes. Éramos ideais máquinas de massacre.

Durante todos esses anos, minha mente esteve em uma espécie de transe, embaçada e confusa. Eu obedecia a cada ordem e a cada comando sem questionar, afinal não havia o que questionar. Todas as minhas memórias anteriores àquele pesadelo, de meus pais, minha vila, minha família, haviam desaparecido. Sido apagadas. Aquela era a única realidade que eu conhecia, então, eu podia apenas segui-la.

Meu irmão, no entanto, era diferente. Ao contrário de mim, a cada dia que passava, sua mente se enchia mais de fúria e rebelião. Ele não o demonstrava. Claro, parecia tão complacente quanto eu. Eventualmente, sua determinação se condensou em um plano de fuga perfeito, o qual nunca conheci. Quando eu tinha 15 anos, ele assassinou três dos marechais e fugiu, me deixando para trás. Fugiu para o território inimigo, para a nação que tínhamos sido instruídos a destruir. Tal ação me atingiu como um golpe de faca. Regence, meu irmão, significava o mundo para mim, pois, naquela realidade distorcida, ele era tudo que eu tinha. Penso que o sentimento não era mútuo, pois ele me abandonou sem hesitar e sem me dar qualquer notícia ou satisfação.

Após aquilo, me afundei ainda mais no estado desnorteado no qual sempre estive. Com três dos marechais mortos, a situação da guerra passou a piorar gradativamente, e, como resultado, a pressão dos dois restantes sobre mim se tornou maior do que nunca. Antes, havia duas opções, agora, só havia uma: eu. Colocaram todos os seus esforços em me aprimorar e, em momento algum, eu me opus. Havia virado exatamente o que eles precisavam.

Passado algum tempo, me levaram a um Coliseu. Finalmente era hora de me fazer aprender a lição mais difícil, mas mais essencial de o meu posto: como matar.

Na véspera de minha estreia, conheci uma mulher. Nos demos bem imediatamente e, por uma tarde e uma noite, ela me fez provar um pouco do que o mundo realmente podia ser. Durante as horas que passei com ela, foi como se o véu que cobria meus olhos e mente houvesse sido levantado. Nunca havia sentido coisa igual. No entanto, a manhã chegou, e precisei vesti-lo novamente. Quando pisei nos tijolos quebradiços da arena e voltei meu olhar para a frente, vi a dama que havia conhecido no dia anterior. Ela era a minha oponente, e apenas um de nós sairia vivo dali. Mais dois guardiões me encaravam da plateia, com expressões sombrias.

Não hesitei. Matei-a em menos de dez minutos. Acho que foi nesse instante que meu
destino como guerreiro e assassino se selou.

Passaram-se os meses, e nosso reino passou a ter mais e mais perdas. Os dois últimos
marechais foram mortos: um deles em batalha, o outro, capturado e executado. Aquilo
significava que meu dever havia começado.

Escalei rapidamente pelos cargos militares; os outros, apesar de tecnicamente
superiores, já sabiam quem eu era e não ousaram tentar me parar. Passei a comandar
unidades, e então, pelotões, e então, esquadrões. Aos vinte anos, já ocupava o cargo mais
alto de comandante chefe. Meus seguidores me adoravam e me deram a alcunha de Rosa dos
Ventos, pois, segundo eles, eu era seu Norte e sempre os guiava onde deveriam ir.

Eu odiava tudo aquilo, no entanto. Odiava ter um papel naquilo, na matança, mas já era
tarde demais, não havia outra realidade para mim. Cada vez que as tripas de algum soldado
inimigo espirravam em mim, eu fechava os olhos e desejava estar morto. Não morri, e continuei
executando meu posto.

Apesar de tudo, fui capaz de me tornar, de certa forma, gentil. Simpatizava com meus
homens e os entendia, tentava não os tratar com opressão, mesmo sendo seu líder. Nesse
meio tempo, encontrei minha própria razão para continuar lutando naquela guerra que eu tanto
odiava e que tanto me trazia agonia: queria ser o responsável por vencê-la, por exterminá-la,
por evitar que milhares de futuros soldados passassem por tal angústia.

Entretanto, para atingir tal objetivo, teria que passar por um obstáculo que era fatalmente
e inegavelmente mais poderoso que eu.

Meu próprio irmão.

Após sua fuga grandiosa, ele havia se aliado ao exército inimigo e saltado pelos cargos
assim como eu. Agora, ele era o líder da nação que eu visava aniquilar.

Quando fui informado disso, senti-me despedaçado; no entanto, minha determinação
não diminuiu. Minha esperança, pelo contrário, sim. Regence sempre havia sido mais forte do
que eu. Nunca ganhei um único duelo, sequer havia acertado um golpe. Contudo, o conflito
final entre nós era inevitável.

Como se esse infortúnio não bastasse, sofri um ataque quase fatal em batalha, que
deixou sequelas permanentes em meu corpo, habilidades e orgulho. Fiquei devastado. Pensei
em desistir completamente de tudo. Perderia, de qualquer forma, qual era o ponto de continuar
tentando?

Cheguei a mirar minha arma em minha testa; não atirei, porém. Já havia chegado até
ali, deveria pelo menos ter a honra de morrer heroicamente em luta, ao invés de por minhas
próprias mãos.

Por volta desse período, no entanto, algo bom milagrosamente ocorreu. Passei a me
aproximar de um soldado. Apesar de ser mais velho do que eu, ele parecia jovem e agia como
tal. Mesmo que fosse amigável, ele sempre parecia um pouco desconcertado ao meu redor e
agia como um cachorrinho amuado. Afinal, ele se culpava por minha deplorável ferida: tentara
me proteger do golpe e falhara. Devido a isso, ele sempre sentia que precisava se redimir,
mesmo que eu não o considerasse culpado de nada. Disse-lhe que sua amizade era redenção
suficiente.

Passei a me fascinar com ele, pois possuía lesões similares às minhas e, mesmo assim,
era incrivelmente poderoso em batalha. Ele me tratou, me ensinou a conviver com a doença e
tornou-se um amigo precioso. Nenhum de nós jamais havíamos tido tal relação de
proximidade, e eventualmente nos tornamos essenciais um para o outro.

Além disso, ele era forte, em áreas que eu e meu irmão talvez não fôssemos. Passei a
ver nele uma esperança de talvez derrotar Regence. Ele era mais habilidoso do que eu, mas
seria mais habilidoso do que nós dois juntos?

Elwin, como era o nome do meu companheiro, era um dos poucos que, assim como eu,
desprezavam a guerra. Foi parar no exército por acaso e sentia-se perdido sobre o que fazer.
Compartilhei com ele minha motivação, e ele a adotou para si.

Passei a treiná-lo pessoalmente. A cada ano que se passava, o rapaz se tornava mais
poderoso, hábil e eficiente. Tomei-o como escudeiro e, finalmente, o encarreguei de me auxiliar
na tarefa de derrotar meu irmão. Ele concordou, e juntos, parecíamos implacáveis.

Anos e anos de conflito se passaram, e, com eles, diversas operações e ataques.
Desenvolvemos nossa Marinha e Aeronáutica com a ajuda de uma nação aliada, inventamos
novas tecnologias, ganhamos e perdemos batalhas. Cada vez mais, a situação se
intensificava, as discordâncias e rixas políticas estavam maiores do que nunca antes, e tornou
se claro que uma crise estava se aproximando.

Era a chance perfeita para começarmos a aplicar nossos golpes finais: uma série de
ofensivas diretas, imprevistas e implacáveis, que, por mais que soassem irresponsáveis,
haviam sido perfeitamente planejadas.

Tivemos sucesso; fomos, aos poucos, conquistando mais e mais territórios, forçando
os a recuar. Com o sacrifício de milhares de vidas aliadas, nos vimos, finalmente, de pé à frente
do centro de operações principal do inimigo. Lá, vi meu irmão pela primeira vez em anos. Ele
costumava evitar entrar em batalhas, mas reconhecia que aquela era inevitável. Nosso destino
havia sido selado, e ambos sabíamos disso. Ele parecia confiante, lembrava-se bem de que
era mais forte. No entanto, ele estava sozinho. Seus aliados estavam mortos, e os meus, vivos.
Além disso, parecia insano, defasado e completamente diferente do irmão que eu conhecera.
Já eu continuava são e possuía companhia e proteção.

Ocorreu uma batalha horrenda, mais brutal do que qualquer outra. Houve golpes, fogo,
destroços, e meus aliados me protegeram contra cada um deles. No fim, Regence não era
páreo para um grupo inteiro de guerreiros, e pereceu. Achei que seria eu a dar o golpe final,
mas não foi. Elwin, meu parceiro, o fez, pois sabia que seria doloroso demais para mim. O
sangue de meu irmão cobriu-o dos pés à cabeça quando seu coração foi atravessado por uma
espada fina.

Ao constatarem sua morte, o exército dos opositores se espalhou e recuou. Não sabiam
como continuar sem seu grande líder.

Estava terminado.

Deixei-me cair de joelhos no chão; o peso de toda uma vida havia sido tirado de meus
ombros. Queria desatar a chorar, mas não consegui. Ao invés disso, olhei ao redor do cômodo
em que a luta havia ocorrido. Era o próprio escritório de meu irmão. Estava completamente
destruído. A única coisa que restava intacta era um delicado envelope bege selado com cera
azul, que repousava em sua mesa de trabalho. Involuntariamente, estiquei a mão em sua
direção e o peguei. Estava endereçado a mim, ao meu primeiro nome, que ninguém além dele
conhecia ou usava. Senti como se meu coração tivesse parado. Abri a carta. Ela dizia:

“Querido Reign,

Me desculpe. A insanidade me tomou e eu o abandonei impiedosamente. Na época,
achei que você se lembrava. Achei que você soubesse da verdade e, mesmo assim, escolhia
ficar do lado dos marechais. Te vi como um traidor, quando o verdadeiro traidor era, no fim das
contas, eu. Mas já estamos envolvidos demais nesse conflito para desistir dele, e sei que você
pensaria o mesmo. Então, tudo que me resta fazer é me desculpar e lhe contar a verdade.

Meu irmão, o reino que fomos ensinados a odiar nunca foi nosso inimigo. Nós nascemos
lá, você e eu. Éramos filhos de lideranças políticas importantes e seríamos os próximos
governantes. Nosso pai era um príncipe indomável, e nossa mãe era a mais doce das criaturas.
Nós dois os amávamos muito. Porém, a guerra já existia, e eles foram mortos em um ataque.
Nós sobrevivemos, e creio que você já saiba quem nos encontrou. Os cinco marechais, ao
invés de nos matarem, decidiram tomar vantagem do nosso treinamento como príncipes e nos
transformar na próxima geração de líderes mortais. Tentaram nos fazer esquecer dos nossos
primeiros anos com nossa família. Eu nunca me esqueci, mas você, no entanto, sim. Mas, até
agora, eu não tinha sido capaz de ver isso. Achei que você ficava do lado deles propositalmente
e passei a odiá-lo. Eu fui cegado pelo ódio, e o deixei para trás. Esse ódio me perseguiu até a
vida adulta, e eu jurei destruir o seu lado. Mas percebo que estava errado.

Meu irmão, me desculpe. Acho que me deixarei ser morto por vocês. Você é nobre e
merece a vitória, e eu sou tolo.

Com todo o amor,

Regence”

Amassei a carta contra o peito e passei a chorar convulsivamente. O que significava
tudo aquilo? Estive lutando pelo lado errado esse tempo todo?

Ouvi passos se aproximarem. Meus soldados se ajoelharam próximos a mim e
murmuraram palavras de conforto. Meu parceiro se sentou ao meu lado e me abraçou,
deduzindo o tema da carta.

– Está tudo terminado agora. O passado não importa mais. – Disse ele. Eu suspirei e
fechei os olhos. Talvez realmente o passado não importasse mais.

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