×

1° lugar – PROSA ESTUDANTIL – CONTO – INTERMEDIÁRIO – Colégio Batista Mineiro – Unidade Ouro Branco – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

Último registro remanescente de “censurado”

Letícia Lima Diniz Araújo
3ª série

Hoje é 17 de março de 1969, acordo com minhas pernas e pálpebras trêmulas, que pesam
como bigornas por causa das noites em claro. Não sei se o que me que me provoca tal efeito é o
medo dos criminosos ou passou a ser o medo dos bons homens da sociedade. Quando consegui
me levantar, me arrastei até a cozinha, as janelas e cortinas do apartamento continuam fechadas
há uns 5 anos, é melhor perder o clarão do sol do que ser recebida pelo clarão da morte. Pães,
bolos e doces me aguardam como uma boa refeição, principalmente nesses anos, me alimentar de
suas doçuras é um tempo que uso para me distrair da situação do mundo lá fora.

Depois da meticulosa e silenciosa rotina que faço todos os dias, com meus passos
desajeitados, desço as escadas e percorro a calçada desviando do olhar de qualquer um que passe.
Ontem soube que Ernesta, uma antiga amiga, fora levada. Um dos policiais prestou atenção demais
em suas belas curvas e roupas alegres e acabou descobrindo seu envolvimento com os fugitivos
do governo. É uma pena, Ernesta era uma das poucas que ainda sorria de orelha a orelha, de
verdade, e quando me visitava sempre trazia alegria e diversão para o meu pequeno cubículo.

Mas eu já tenho problemas demais para mim, por isso resolvo esquecê-la e me escondo
ainda mais em minhas roupas apagadas e gastas. Me expressar com as roupas coloridas que usava
quando era jovem igual a Ernesta é pedir para ser levada por alguém, como ela foi, e não desejo
tal destino para mim.

Chegando ao prédio da editora, na avenida Cristóvão Colombo, vou até minha mesa e me
sento, começando a afundar as teclas com os dedos, digitando falsas notícias, sobre falsas
verdades, sobre falsos homens bons. Não é algo difícil, tenho apenas que ignorar todos os
ensinamentos do curso de jornalismo e imaginar o que escrever para agradar os superiores: elogios,
falácias, bajulações, qualquer coisa serve. Para o governo, isso é o que o povo deve receber, então
é o que recebe. Sou uma trabalhadora de um jornal público que deve obedecer aos homens brancos
do governo e não contrariar o que me pedem, independentemente do que seja. Não tenho mais
força ou coragem como antes para negar isso, e para não acabar enlouquecendo, fico repetindo na
minha cabeça que é melhor obedecer e sentir o medo do que desobedecer e não sentir nada.

A tarde de hoje foi movimentada na Gonçalves Dias, uma rua a poucos passos da editora
em que trabalho. De lá consegui ouvir claramente tudo que estava acontecendo. Ouvi gritos de
raiva, de dor, de tristeza pela rua. Eram pessoas que buscavam liberdade e verdades, não as
mentiras que eu escrevo. Tudo isso me fez lembrar que até pouco tempo era eu que participava
desses protestos, lógico que foi antes dos militares assumirem o poder. Era uma época boa e
animada, mas tive que ignorar a memória e continuar a escrever sobre alegrias, boas notícias e
como o país está destinado a um futuro próspero graças ao nosso governo.

Será que um dia poderei noticiar a verdade? Em um amanhã próxima, eu espero, mas
infelizmente, estou sempre presa hoje, pacientemente esperando. Tenho fé, mas queria que fosse a mesma fé que meus pais cultuavam- os orixás. Não um Deus imposto que prioriza os brancos
ricos em vez do povo pobre e esquecido.

Depois de escrever tanta fantasia, chegou a hora de bater o ponto e retornar ao apartamento.
Esse é um dos poucos momentos em que me permito erguer o rosto e analisar o calendário logo
acima na parede ao lado da foto do General militar branco que está de posse do país atualmente. Sr.
Arnalberto faz questão de que o vidro da foto sempre esteja muito bem limpo para ver com clareza
a face de seu tão amado líder, enquanto o calendário continua todo empoeirado. Na saída, ele me
parou no corredor para reclamar de como os universitários nas ruas estão atrapalhando o
desenvolvimento do país. Tive que concordar, já que é ele quem paga o apartamento e a
alimentação que consumo todos os dias.

Hoje, diferente do normal, eu me surpreendo, acabo de completar 29 anos, e esse fato me
faz lembrar de meu pai e como ele iria adorar sentar-se ao meu lado na Praça da Liberdade e tomar
um delicioso sorvete, olhar para cima até o sol arder os nossos olhos e o pescoço doer, olhar os
pássaros e os prédios em construção, era algo simples, porém divertido que fazíamos em todos os
meus aniversários. Lamentavelmente, meu pai não está mais presente. Ele acabou sendo excluído
da minha história e a desse país, apenas por querer ensinar verdadeiramente matérias escolares
para os jovens e não apenas mandá-los decorar datas e acontecimentos que os militares julgavam
importantes. Mesmo sem ele, essa tradição não permitirei que apaguem. Hoje, eu, Antonieta de
Barros, irei sorrir, saltitar e correr como criança. Comemorarei esse dia especial como o meu
primeiro e último dia de alegria no ano, como venho fazendo sempre, apesar desse período de
chumbo que estamos vivendo. Não deixarei que tirem esse momento de mim.

Eu desço como vento pelas escadas e permito que meu olhar se ilumine e brilhe como o
sol das tardes que iluminavam aquela praça com meu pai. Passei pela porta do prédio da editora, e
na rua senti meus cabelos encaracolados pretos como carvão, anteriormente trancafiados em um
coque alto, balançarem com o movimento. Já conseguia até mesmo ver a |Praça da Liberdade logo
à minha frente. Decidi apressar o passo como uma criança animada para chegar logo no parquinho.
Quando finalmente cheguei, respirando ofegantemente por causa da corrida, acabei vendo um
clarão passar pelos meus olhos, mas era diferente do que o que eu via na época do meu pai. Dessa
vez, foi um clarão acompanhado de um barulho alto e agudo de pistola passando pelos meus olhos
e me cegando como o sol nunca fez.

Acho que me confundiram com os universitários de mais cedo e acharam que estava
fugindo ou algo assim, não tenho certeza. Talvez ver uma mulher negra correndo com sorriso largo
no rosto pela calçada seja algo indesejado para eles, talvez minha felicidade tenha se confundido
com loucura, ou simplesmente quiseram testar se a mira ainda estava boa. Contudo, não me
importo com nada que eles fazem.

Enquanto caia para trás por causa do impacto da bala e atingia o chão duro da calçada,
fiquei, em meio ao silêncio escuro, pensando na minha vida e na morte que estava batendo em minha porta agora mais do que nunca. Foram minutos que pareciam eternos e nesse momento,
cheguei a algumas conclusões. A primeira foi que eu deveria ter apoiado Ernesta e o pobre pessoal
que sofria como o meu pai sofreu, a segunda que eu deveria ter noticiado o que o povo precisava
e não o que o governo desejava, a terceira que eu deveria ter lutado como aqueles universitários, a
quarta que eu deveria ter feito mais coisas na minhas vida para não acabar simplesmente sendo
apagada do legado do país sem deixar nada de relevante e por fim em como deveria ter deixado
as janelas e cortinas abertas para o sol iluminar o meu apartamento. Aquele lugar deveria ser meu
lar, meu porto seguro, onde eu deveria ser eu mesma e não apenas uma caixa de concreto, escura,
e abafado na qual me escondia.

“O medo é um sentimento que existe apenas para deixar o ser humano em alerta e seguro,
evitando os perigos que o meio externo pode gerar, mas quando ele passa a ser uma opressão e
diminuição em vez de proteção, é aí quando devemos superá-lo para conseguirmos nossa
segurança.” Meu pai disse essa frase um dia antes de desaparecer. Não tinha me importado tanto
com ela no início e acabei esquecendo-a por muito tempo, assim como eles queriam. Naquele
momento, consegui lembrar dela, em meio a escuridão e a dor que estou sofrendo. Sinto tristeza,
arrependimento e raiva por não a ter lembrado a tempo o suficiente para compreender o último
ensinamento que meu pai queria me dar e tê-lo aplicado para não acabar tendo uma vida tão
medíocre.

Sinto meu coração diminuir o ritmo a cada pensamento, me deixando ainda mais eufórica,
o resto de vida escorrendo pelas minhas mãos como o sangue que desce pela lateral de meu rosto,
e nesse último instante, só consigo ver em minha mente a figura de meu pai balançando a cabeça
desapontado comigo, como ele fazia quando eu brigava, na escola, com algum dos meus colegas
de infância, logo, como eu sempre fazia para me redimir do meu erro, fui me desculpar com ele.

– Me desculpe, pai, por sumir assim dos registros…

Share this content:

Publicar comentário