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2° LUGAR – CRÔNICA NACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

Despedida burocrática

Patrícia Roberta Alves Xavier de Almeida
Afogados da Ingazeira/PE

Era para ser apenas uma manhã comum. A moça saiu de casa equilibrando a pasta de
trabalho com o celular na mão esquerda, enquanto abria a porta com a outra, olhos no relógio e a
cabeça na reunião que iniciaria às 8h. Mesmo apressada, fez o que fazia todos os dias antes de ir
trabalhar. Passou na casa da vizinha que, para ela, era mais que uma amiga. Era uma espécie de
vozinha. Um gesto antigo, cultivado ao longo de mais de uma década. Elas tinham uma amizade
daquelas que dispensam grandes atos, que se retroalimentam com um sorriso ou simples bom dia
diário.

Chegou diante da casa e chamou já batendo à porta.

Silêncio total.

“Deve estar ouvindo o rádio e varrendo o quintal”, pensou.

Chamou mais uma vez e… nada.

Do corredor, de onde a amiga sempre vinha arrastando as chinelas, não ouviu passos. Então,
a moça lembrou da chave que ela lhe dera anos antes, dizendo: “fique com essa cópia para o caso
de uma emergência”.

Ela nunca tinha usado, mas carregava-a na carteira.

A urgência havia chegado sorrateira.

Girou a chave com as mãos trêmulas. Empurrou a porta. Caminhou hesitante à cozinha,
mas a amiga não estava lá. Não havia o cheirinho costumeiro de café. Foi ao quintal e… nada.
Bateu à porta do banheiro e… nada.

Chamou mais uma vez.

Silêncio.

Finalmente, abriu a porta do quarto.

E lá estava sua amiga.

Deitada, em decúbito dorsal. Seu rosto estampava uma expressão serena.

A moça tocou-lhe a mão, que estava afastada do corpo, levemente aberta.

Estava gélido.

Uma sensação perturbadora apertou-se o peito. Checou o pulso com a ingênua esperança
de encontrar ao menos pulsar fraco, mas teve certeza de que a amiga já não estava mais ali.

Subitamente, pensou: “E agora, o que eu faço com o corpo dela? ”

Pegou o celular e iniciou o percurso que ninguém sabe ao certo como seguir.

Primeiro, o SAMU.

— Se não respira mais, é com a Polícia Militar — disseram com apatia.

Ligou para a PM.

— A senhora confirmou se ela está realmente sem vida? — Indagaram-na.

— Olha, não sou médica. Mas a mulher não respira, não se move, não pisca e está gelada
feito mármore — disse a jovem.

— Então, moça, você precisa que um médico ateste o óbito. Sem isso, não vai poder
remover o corpo do local.

Ligou para a Unidade de Saúde mais próxima.

— Estamos sem médico disponível para visita domiciliar — informaram.

Ligou para o hospital.

— Por se tratar de morte sem testemunhas, o corpo não pode ser tocado antes da liberação
da polícia. É preciso descartar a possibilidade de ter sido uma morte provocada. Aconselho que
procure a polícia, mesmo porque você tem a chave da casa e está com o corpo.

Acionou a PM novamente. Dessa vez, disseram-lhe que o corpo teria que ser levado para
o IML.

Entrou em contato com o IML. Foi atendida por uma gravação. Esperou, esperou. esperou.

Caiu.

Ligou de novo e tudo se repetiu.

Tentou a Secretaria de Saúde.

— Não é conosco, moça! Talvez seja com a Vigilância. Vou transferi-la para lá.

— Moça, isso é com a funerária. Não é conosco.

Ligou para a funerária.

— Só com a confirmação do óbito atestada por um médico – disseram em um tom ríspido.

A moça se viu presa em um labirinto burocrático e desprovido de qualquer centelha de
humanidade.

E o corpo da sua amiga permanecia à espera de autorização para oficializar sua partida.
Já era quase meio-dia. A moça, sem saber mais o que fazer, ligou para seu psicólogo. Ele a ajudou
a acionar uma médica do postinho, que por amizade a ele ou, talvez, por compaixão, foi até lá e
confirmou o óbvio.

— Trata-se de uma morte natural. Infarto fulminante, não há dúvidas — disse, preenchendo
o formulário que daria fim àquela celeuma.

A funerária, enfim, pôde agir.

Horas depois, a boa senhora, já vestida a caráter, pôde ser velada.

Só então, a moça chorou pela amiga de quem se despedia. Chorou também por algo mais
difícil de nomear. Talvez fosse um choro de raiva pela exaustão de passar por aquele labirinto frio
e pela constatação de que, até diante da morte, é preciso acionar alguém que indique alguém para
dar um jeito.

No dia seguinte, a moça estava diante de outra celeuma. Dessa vez, precisava justificar sua
ausência à reunião que deveria ter ministrado.

— A legislação não prevê abono de fata em caso de morte de amigos ou vizinhos, disseram-
lhe.

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