5° LUGAR – CONTO INTERNACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
Término Artificial
Gabriel Cassar
Porto/Portugal
Eram favas contadas: aquele relacionamento já não dava mais pé.
Não que isso fosse novidade, mas Stéfanie resolveu se iludir e
esticou o inevitável por. dolorosos e morosos mais três meses, até
chegar ao limite. Rayanne, por outro lado, não aceitava de jeito
nenhum a “má fase” da relação, argumentava, discutia, brigava, mas
não dava o braço a torcer. Para ela, tudo se resumia a pequenos
desentendimentos que poderiam ser resolvidos com uma boa
conversa ou com uma noite de sexo violento e revigorante.
O simples fato de mencionar um possível fim de namoro, mesmo
que de forma futura e hipotética, já provocava reações raivosas em
Ray, deixando Sté ainda mais acuada e sem autonomia. Os debates
eram sempre vencidos no grito, por quem falava mais alto, o que
gerava uma desvantagem desleal para a coitada, que resignava-se a
cada berro efusivo de sua ex-amada. Sté se sentia fadada à desgraça,
presa nas algemas e correntes daquela relação tóxica e que já há
muito não lhe fazia feliz.
Um dia, durante uma chuvosa tarde de domingo, enquanto assistia
televisão, Sté foi apresentada ao ChatGPT.
Uma nova revolução tecnológica se avizinha; a Inteligência Artificial
ganha seu mais novo expoente, o ChatGPT, capaz de gerar
respostas, propostas e soluções de forma mais completa e simples
do que o próprio Google.
Os olhos da menina ficaram vidrados nas explicações da até então
nova ferramenta, os prompts, as redações completas, artigos
gerados artificialmente com a simples adição de tópicos, pesquisas
extensas e bem acuradas… Basicamente o novo monstrinho era
capaz de tudo, o que fez Sté ter uma ideia.
Já há algumas semanas, a moça vinha pensando numa forma de
terminar com Ray. Era colocar na balança os prós e os contras de
cada modelo e chegar numa conclusão depois de muita análise.
Conversar pessoalmente nem pensar, já que Sté ficava nervosa e
acuada com a postura agressiva da ex-amada, iria acabar sendo convencida e permanecer na draga amorosa. Por telefone, apesar de
não ter o componente do face a face, a simples voz empostada de
Ray já seria suficiente para sugar toda a coragem de Sté, que era
capaz de nem conseguir encerrar a ligação. Ficamos, então, com a
alternativa C, escrever.
SMSs já eram muito antiquados e davam medo em Sté, ela achava
que pareciam golpes, estelionatos ou promoções indesejadas de
operadoras. Por e-mail também não rolava, muito formal, parecia
uma carta de demissão. Sobrou o WhatsApp. Sté começou e apagou
a fatídica mensagem repetidas vezes, sem nunca conseguir concluir
um parágrafo sequer. Começou a imaginar o seu “typing”
aparecendo na tela do celular de Rayane e ela se antecipando,
mandando um texto primeiro que ela, já antevendo todos os seus
pontos e argumentos. O nervosismo tomava conta, será que não
havia jeito daquela relação terminar?
Foi aí que surgiu a grande, a estupenda, a incomparável ideia:
deixar um robô fazer o serviço. Utilizando a versão gratuita do
ChatGPT, Stéfani daria os tópicos para a IA, pediria um texto de
término de relacionamento e voilà: The End. Thats All Folks, c’est
fini. Claro, antes de apertar o “Enter”, Sté pensou no aspecto moral
e ético da coisa: seria muita safadeza fazer isso? Afinal, estaria ela
terceirizando o término de seu relacionamento, fugindo de uma
responsabilidade que era sua e fazendo pouco caso do sentimento
que nutriu esse tempo todo por Ray?
Ao mesmo tempo, a tecnologia já estava mais do que presente nas
relações amorosas de hoje em dia. Aplicativos que dispõem seres
humanos tal qual num cardápio, onde são descartados após um ou
dois segundos, dependendo única e exclusivamente de sua primeira
foto e frase logo embaixo. Algoritmos que pescavam suas preferências, estéticas e intelectuais, e te ofereciam opções que
eram tudo, menos orgânicas. Términos por mensagem de zap,
traições expostas nas redes sociais, sexo casual em banheiros de
academia… A lista era extensa.
Sté, enfim, depois de ponderar sobre os dois lados, decidiu mandar
o Chat redigir a cartinha do fim do relacionamento. Leu, releu,
achou honesta, bem escrita, embora um pouco seca demais. Vá lá
também, era demais esperar que uma máquina tivesse sentimentos.
Elas (ainda) não têm.
Texto pronto, texto enviado. Os dois risquinhos de mensagem lida
ficaram azuis, o que gerou um misto de ansiedade e alívio em Sté.
Depois de uns 15 minutos de hiato, veio a resposta de Rayanne,
surpreendemente resignada e conformada. A agora ex-namorada
disse ter entendido os pontos expostos na carta do término e que
não tinha mais o que fazer para salvar aquela relação. Só havia uma
pequena ressalva por parte de Ray: ela achou o tom de Sté seco
demais, muito sóbrio, nem parece que era ela.
Sté abriu um sorriso contido nessa hora. Não era mesmo.
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