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3° LUGAR – CONTO INTERNACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

Alentejo, Terra Mártir e Distante

Tiago Passão Salgueiro
Alentejo/Portugal

Portugal, Inverno de 1975.

Geraldo andava inquieto. Tinha as entranhas em alvoroço, com tanta ansiedade
acumulada. Vinha da aldeia para o monte pelo caminho velho do Colmeal. Pelo meio das
fragas, o vento assobiava com força, fazendo pender as copas dos velhos sobreiros.

A noite estava escura como o breu. Não se via um palmo à frente do nariz e a
cabeça estava em água. Estava um frio cortante, que quase tirava os sentidos. Os vultos
das azinheiras e oliveiras eram verdadeiramente assustadores. O cenário não era menos
que medonho. As histórias de fantasmas e de moiras encantadas povoaram então a
cabeça de Geraldo.

As velhas e usadas botas cardadas estavam cada vez mais pesadas, mas ainda
assim, olhou para o firmamento, como que pedindo ajuda divina para o que restava do
caminho. Mas, se não acreditava em Deus, como lhe tinha surgido aquele pensamento?
Seria pela aflição?

Sentia-se fatigado. Andava minguado de fome, pois nem tinha vagar para comer,
tal era a azáfama desses dias. A sua feição pálida denunciava o estado quase anémico. A
rotina de comícios e as noites intermináveis, a escrever à luz da candeia os textos
revolucionários que um dia, como acreditava, lhe haviam de custar a vida, apressou
ainda mais o passo, desejoso de chegar ao monte.

Com estranheza, recordou o cheiro do capim na mata, quando em Angola,
forçado, cumpria os serviços militar, combatendo na guerra colonial. Os traumas desse
tempo ainda estavam muito presentes e traziam vis recordações à sua pobre cabeça feita
em água. Aqueles caminhos, outrora dos contrabandistas que cruzavam a raia, estavam
cheios de mistérios e segredos. Andar a horas mortas por estas paragens era uma
decisão de coragem. Mas Geraldo tinha este estranho dom de enfrentar os desafios de
peito aberto. A vida tinha-o ensinado a isso.

Mas não havia outra forma de chegar ao destino. Sonhava com o lume a crepitar
e estava com pressa para aquecer os ossos. Com a pasta cheia de papéis debaixo do
braço e a boina enfiada nas orelhas, caminhando apressadamente por entre a escuridão,
Geraldo olhava para trás amiúde, no seu trajeto.

Sentia a estranha sensação de estar a ser observado. Pelo meio das estevas,
parecia ver vultos assombrados a correr também na sua direção. Sentiu um arrepio na
espinha. Estes tempos eram demasiado tensos e perigosos, sentidos em golpes de
recordações de um passado recente.

Subitamente, sentiu as ramagens do mato a mexer e parou, no meio da escuridão.
Talvez fosse um cão vadio ou algum gato bravo. Mas podia ser algum dos criados do
Ezequiel Moura que tinha vindo no seu encalço. Na taberna da vila, já várias vezes lhe
haviam jurado pela pele, em ameaças veladas:

– Nem sabes onde te andas a meter. Ficas com as ventas cheias de esterco um dia
destes!

Não dava importância ao que se dizia, mas sabia de antemão que muitos o
queriam ver pelas costas. Ou sete palmos debaixo da terra. Não sossegariam enquanto
isso não acontecesse. A esperança, sentida nos ventos de mudança que tinham soprado e
trazido a liberdade, pareciam agora estar a desvanecer, a perder a intensidade de outrora.
Sentia esse peso nas costas, como se fosse o único responsável por propagar a
mensagem, na qual acreditava piamente. Não podíamos voltar ao passado, ao tempo em
que uns tinham tudo e outros, nada. A luta tinha que continuar!

A sessão de esclarecimento na casa do povo tinha sido dura. Os camponeses
estavam descontentes com o rumo dos acontecimentos. Queriam trabalhar, mas
continuava tudo na mesma. A escravatura e a indiferença continuavam a ser uma
realidade. Como nos tempos da outra senhora. Os patrões continuavam a pôr e a dispor,
o que causava entre o povo uma grande revolta. Os intocáveis sentiam-se ainda como os
donos e senhores desse Alentejo, marcado pela subjugação dos mais fracos e oprimidos
aos grandes latifundiários. Esse pretenso poder fazia com que os mais medrosos
venerassem os grandes senhores da terra, em modo de vassalagem imposta e, em muitos
casos, violenta.

Trazia consigo as marcas desse tempo em que os agrários punham e dispunham
das gentes humildes e sentia uma revolta dentro de si, só de pensar no possível regresso
desses dias.

– De que serviu a revolução? Continuamos a ser explorados, como dantes! – gritavam em uníssono.

– Não podemos baixar os braços! – retorquia Geraldo, na sua voz grave. – Nada está
ganho! É preciso defender o preço da liberdade!

Por momentos, parecia que nada tinha mudado. Os senhores continuavam a ser
os senhores e a arraia-miúda, votada à exploração e ao esquecimento. E esse sentimento
era generalizado. Geraldo olhava à sua volta. Conhecia bem aquela realidade. A pobreza
grassava. As continuadas promessas da revolução ainda não tinham chegado a lugar,
pois a miséria era cada vez maior.

Os pobres continuavam a vaguear de monte em monte, pedindo esmola ou um
pouco de pão. Alentejo, terra-mãe, mártir e distante, onde os grandes senhores
continuavam inebriados com os velhos vícios medievais e, não raramente, tentavam
espezinhar e humilhar os seus servos, não obstante as conquistas que supostamente
tinham sido feitas com o rubro clamor dos cravos de Abril. O Alentejo continuava a ser
um vasto campo de lonjuras, de terra seca e gretada, regado com o suor dos corpos de
mondadeiras e ceifadores.

Geraldo era a voz desses esquecidos, mas por vezes sentia-se só. Poucos mexiam
uma palha em prol da causa em que a maioria acreditava. Queria continuar a lutar pelos
valores de Abril, mas sentia que o que continuava a acontecer contrariava os princípios
da revolução. Havia um certo desânimo no ar. Aquilo que escrevia nos jornais era uma
idealização romântica dos dias bonitos de Abril, dos cravos nas ruas, da esperança
coletiva, mas cuja memória se foi desvanecendo com a passagem do tempo, por entre a
desilusão e as incertezas.

O jornalista sabia disso, mas queria lutar contra isso. Os ideais da revolução
tinham que ser regados, todos os dias. Mas a realidade é que parte do que tinha sido
apregoado nesses dias que agora pareciam tão distantes, não era mais do que uma
filosófica ilusão. Muitos dos ideais da novel democracia não passaram de uma utopia, de
um sonho que muitos tiveram, mas que a realidade vinha contrariando…

Por isso, sonhava com uma terra livre de tiranos, talvez até com um Alentejo
independente, defendido pela sua escrita barroca e poética, em que somente os
alentejanos pudessem gerir o seu destino com as suas próprias mãos. A pátria alentejana, flagelada pelo calor do verão e tingida de branco pelas geadas de janeiro,
tinha que deixar de ser uma miragem, uma metáfora, uma forma de poesia.

Mas este sonho também tinha um preço. Podia ser o sangue, o sofrimento, a
morte. Consequência teriam sempre lugar, pois a luta deixa sequelas, quando se tenta
almejar a terra prometida, tal como nos textos bíblicos, ainda assim inspiradores para
um herege. E este lugar mágico deixa uma marca indelével nas gentes da planície. Uma
herança pesada, por vezes, mas cheia de sentimento que alimentava os mais fracos e lhe
dava o alento para sobreviver.

Sentia algum medo, pois sabia que tinha a cabeça a prémio. Os seus polémicos e
incendiários artigos de opinião no Diário do Alentejo, defendendo a classe operária e os
princípios revolucionários, levantavam muitas inimizades. Nos seus textos, sem
complexos, chamava os bois pelos nomes, por vezes de forma corrosiva e, em muitos
sentidos, até injusta, puxando para o Alentejo a capacidade revolucionária do país, com a
implementação de uma reforma agrária efetiva. Isto implicava uma mudança social
radical e uma nova ordem política.

Mas sabia que a reação poderia ser violenta, nessa defesa escrita e poética em
prol dos camponeses. Tocava em temas tabu, cujo preconceito não tinha ainda removido
totalmente da cabeça de muitos. A terra a quem a trabalha! A terra a quem produz! A
terra a quem retira os musgos com as suas mãos e faz crescer o trigo. A exaltação destes
valores, numa sociedade ainda muito enraizada na realidade ancestral que tinha moldado
a vida dura no Alentejo, levantavam, ainda que numa minoria, ondas de contestação.

Eram precisas novas ideias e novos ideais. Novas formas de luta. De fraternidade,
de justiça, de oportunidades, que teimavam ainda em não chegar às eiras e aos montados.
Eram precisos mais atos, mais mangas arregaçadas, em prol do que já havia sido
conquistado.

Mas faltava ainda tanto chão por percorrer. Geraldo vivia com esta obsessão, que
lhe roubava o tempo para o que quer que fosse. O seu pensamento estava completamente
formatado, como se tivesse levado uma lavagem ao cérebro que o impedia de pensar
mais para além da nova ordem social que queria impor. E se fosse necessário derramar
sangue para o efeito, estava disposto ao sacrifício. Se fosse necessário pegar em armas,
a caçadeira que tinha na cabeceira da cama, no monte, estava carregada e pronta para o que desse e viesse.

Os pensamentos que pululavam na sua cabeça não o impediam de seguir
apressado a caminho do monte, apesar de não se conseguir abstrair totalmente da
realidade tenebrosa que o envolvia, naquela noite fria de inverno. O medo fazia com os passos fossem cada vez mais céleres na direção do seu destino.

Mas a inquietação tomou conta do pobre jornalista e decidiu parar. Quase que
sentia um bafo nas suas costas. Recordou os telefonemas anónimos recebidos na redação
do Diário do Alentejo, dirigidos à sua pessoa, com as ameaças de morte, cada vez mais
frequentes e assustadoras. O chefe já o tinha avisado.

– Geraldo, vai com calma, porque esta gente é poderosa e não brinca em serviço!

Mas, indiferente aos avisos, o jornalista continuava focado em fazer passar a sua
mensagem, com a escrita revolucionária a incitar ao levantamento popular, destilando
ódio contra a elite que continuava a dominar a vasta planície transtagana. De súbito, já
na encosta do monte, junto à fonte das lágrimas, um vulto surge-lhe pela frente. No
meio da escuridão, o desconhecido, que parecia estar à espera, a poucos metros, tira um
revólver do bolso do capote e dispara dois tiros à queima-roupa, que atingem o
jornalista.

Ferido, esgueira-se pelo meio das silvas, com o assassino no seu encalço. Conhecia aquelas paragens como as palmas das suas mãos e, tentando despistar o seu
perseguidor, seguiu por um trilho antigo do tempo do contrabando. O sangue esvaía-se
pelo corpo, de forma incessante. Sentia que ia desfalecer, mas ainda assim conseguiu
chegar, muito combalido, à porta do monte.

Não teve tempo para entrar. Uma última e derradeira bala entra-lhe pela cabeça,
rebentando-lhe os miolos. A pasta com os escritos revolucionários que sairiam na manhã
seguinte cai na rua do monte, espalhando os manuscritos ao vento. Calaram a voz de
Geraldo, mas a notícia da sua morte ecoou pelos vales e montes, como mais uma vítima
da revolução, da eterna disputa entre os fracos e os fracos, entre os ricos e os pobres,
entre os privilegiados e os que lutam por uma vida melhor. Nada se soube sobre quem
tinha cometido aquela barbaridade. A penumbra da noite ocultou os homicidas e nenhum suspeito foi avistado naquela madrugada sangrenta.

Os escritos, esses, ficaram para sempre perpetuados, nas páginas dos jornais, como uma vaga memória dos tempos difíceis do Alentejo, em que as armas eram usadas para silenciar os que ousavam erguer a sua voz contra os poderosos…

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