2° LUGAR – CONTO INTERNACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”
Fui prostituta
Luísa Maria Ferreira Pinto de Lima
Santa Maria da Feira/Portugal
Em pequenina a minha mãe era o refúgio dos meus medos. Dormia encaixada
nos seus braços, num agasalho que só uma mãe pode dar.
Não vou falar da falta que ela me fez, após a sua morte, porque jamais teria as
palavras certas para descrever um sofrimento tão grande e tão profundo.
Nunca conheci o meu pai. Ela dizia que ele me abandonou no berço.
Na escola, gostava muito da professora Arminda. Ela oferecia-me livros. Sabia o
quanto eu gostava de ler.
Quando a minha mãe morreu, fui viver com os meus tios e as minhas primas,
Adélia e Marlene. Elas eram pouco mais velhas do que eu.
No final do verão em que a minha mãe faleceu, a maçaneta da porta bateu muito
delicadamente. Fui abrir a mando da minha tia. A minha professora, logo que me
viu, abraçou-me na soleira da porta. “Juliana, minha querida”, disse ela com a
sua voz doce. Um pranto lívido e sem lágrimas turvou-me a voz. Encolhi-me no
seu peito. Quando finalmente nos conseguimos desprender uma da outra, ela
tirou dois livros da pasta e colocou-os no meu regaço.
“A Juliana não pode ler”, disse a minha tia num tom agreste. “Precisa de tempo
para os afazeres desta casa”. A professora olhou para a minha tia sem perder a
compostura. Abriu a boca como quem vai dizer alguma coisa, mas a minha tia
não lhe deu tempo. “Agradeço que não volte a esta casa com o propósito de a
estragar com maus hábitos”. Eu devolvi os livros à professora Arminda com as
mãos trémulas. Ela baixou os olhos para esconder as lágrimas. Saiu. Começou
a subir a ladeira, a custo, porque a sua idade avançada já lhe tolhia os passos.
De certo, ia rezar na capela que ficava no cimo do morro. Nesse instante, o vento
varreu a rua; as árvores desgrenhadas despiram-se das folhas amarelecidas que
tombaram no chão; o sol escondeu-se envergonhado; o céu pintou-se de
cinzento, e as nuvens largaram as primeiras bátegas da chuva. Começou o
Outono, assim, abruptamente.
A minha tia, mais dada a reprimendas do que afagos, fez de mim sua criada e
proibiu-me de continuar a estudar. Dizia que eu precisava de tempo para esfregar
as escadas, limpar o pó, varrer a casa, cuidar da horta e ir à mercearia. Em troca,
tinha cama, comida e roupa lavada.
O tempo passou como uma sombra fria. E, como se a própria vida quisesse
aprofundar o meu desalento, descobri na adolescência o hábito cruel de me
comparar às minhas primas.
O meu quarto era um cubículo nas águas furtadas. Através da claraboia, a lua e
as estrelas do céu espiavam o meu choro, noite após noite.
O quarto delas tinha uma janela grande que dava para a rua. Os rapazes
abrandavam o passo quando por ali passavam. De manhazinha, uma das
minhas primas assomava à janela, “já vamos”, e os meninos ricos com cabelos
à Beatles, esperavam para seguirem juntos até ao autocarro que os deveria levar
ao colégio da vila, a escassos quilómetros da nossa aldeia.
Oh, meu Deus, como eu invejava as minhas primas! Elas tinham a pele de seda;
eu carregava no rosto um mapa de borbulhas. Com cinturas finas e pernas
esguias, escolhiam nas revistas as mini saias da moda e as calças à boca de
sino que lhes assentavam como se tivessem nascido para elas. Eu, roliça, herdava-lhes os vestidos quando já estavam gastos ou fora de moda, e ficavam- me tão apertados que me sentia encafuada num colete de forças. As calças que me deixavam, essas mal sobreviviam: as minhas coxas tratavam de as rasgar entre as pernas. A Adélia e a Marlene pareciam saídas de Woodstock; às vezes
pensava que Deus lhes tinha tocado com uma varinha de condão para as fazer
tão belas.
Ao fim da tarde, a minha tia mandava-me à mercearia. Parecia de propósito,
como se quisesse lembrar-me do meu lugar. Eu atravessava o jardim diante da
igreja, e lá estavam elas, as minhas primas, coloridas como borboletas, rodeadas
das suas amigas. Olhavam-me de soslaio, cochichavam, soltavam risinhos.
Depois vinha o coro quase estridente: “olá, Juliana!”. Eu respondia com um
aceno tímido, os ombros encolhidos. As lágrimas tremiam-me nos olhos e seguia
caminho com as pernas a fraquejar.
Nesses momentos, revoltava-me. Não me parecia haver justiça divina. Não tinha
pai, não tinha mãe, não podia estudar e acreditava que nenhum rapaz olharia
para mim.
Lá em casa, a única pessoa simpática era o meu tio. Tinha um sorriso enigmático
no canto dos lábios e, por vezes, os seus olhos prendiam-se nos meus com um
carinho misterioso.
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Eu esfregava as escadas de bruços, respirando o silêncio da casa. As mãos do
meu tio tocaram-me, ao de leve, nas pernas. As pontas dos dedos deslizaram
suavemente pelas coxas, como se fossem algodão. Senti calafrios; o meu tio
ciciava no meu pescoço: “és linda; muito linda e cheiras a fêmea”. Nunca
ninguém me tinha dito que era bonita e essa coisa de cheirar a fêmea não sabia
o que era.
Não me vou alongar em descrições eróticas e, muito menos, pedófilas, porque
não é esse o propósito destas páginas.
No ano seguinte, quando a minha barriga já não cabia debaixo do avental, a
minha tia cuspiu-me no empedrado da rua com todos os impropérios de que foi
capaz. Mal ouviu os berros da minha tia, o meu tio refugiou-se no quarto. Nunca
mais me procurou e manteve-se a viver lá em casa até ao fim dos seus dias.
Eu só tinha uma amiga na aldeia. Uma companheira dos bancos da escola, que
não prosseguiu os estudos por ser pobre. Eu tratava-a por Lena, embora o seu
nome fosse Madalena. Os pais dela, pessoas humildes e de bom coração,
prometeram acolher-me até a minha Sarinha nascer. Não tinham posses para
mais.
A Lena era auxiliar no infantário da vila. Após o parto da Sarinha, tentou arranjar-
me trabalho, como empregada de limpeza nesse infantário. Que não. Eu seria
um mau exemplo para as criancinhas. Todas as portas se fecharam. Já ninguém
me olhava de soslaio. Era pior. Todos me olhavam com desprezo, sobretudo as
mulheres.
Na altura, pensei que era o meu karma. Mas eu não podia passar esse Karma
para a Sarinha. Ela merecia um futuro melhor.A professora Arminda seria a única
que me poderia dar uma mãozinha, mas já não morava na aldeia. Pouco tempo
depois de a minha tia a ter posto na rua, foi dar aulas para outras paragens, sem
mencionar para onde ia. A última recordação que guardei dela foram os seus
olhos marejados de lágrimas.
Fui parar à berma da estrada para pagar o meu sustento e o de Sarinha em casa
dos pais da Lena. Sim, tornei-me prostituta. Prostituta com todas as letras.
À noite, enquanto embalava a minha menina, escorriam-me lágrimas de
inocência perdida. Apesar de tudo, sentia-me aliviada por a minha mãe ter
desaparecido. Ela teria morrido duas vezes: a primeira no acidente, a segunda
de desgosto.
Mais tarde, resguardada do frio e do vento, pousei arraiais na Pousada do Céu,
situada à entrada da vila. Ironia das ironias, a Pousada do Céu, era contígua ao
colégio que as minhas primas, agora universitárias, tinham frequentado.
A Sarinha continuou em casa da Lena, mas eu visitava-a todas as manhãs.
Nos pinhais, a minha atividade era diferente. Os homens, a maioria camionistas,
aliviavam-se e prosseguiam o seu caminho com pressa de chegar ao seu
destino. Eu mal lhes fixava o rosto.
A Pousada do Céu era uma casa cor de rosa, muito bem caiada, enfeitada com
tufos de glicínias brancas que trepavam as paredes. Em redor dos quartos, havia
uma varanda com um friso de madeira, onde o gato da dona Silvina se
empoleirava a observar o corrupio dos clientes e das meninas, com uma espécie
de indiferença profissional.
Cedo descobri que nem tudo era um mar de rosas, na Pousada do Céu. As mais
belas eram mais bem pagas e, a dona Silvina, uma senhora com ar distinto,
falava com voz de anjo, sempre que alguma das suas meninas não queria
atender um cliente bruto, ou com manias que não vem ao caso descrever. “Meu
amor”, dizia ela num tom carinhoso, “eu compreendo. Se não quiseres, não te
vou obrigar, mas sabes que tens que me devolver a minha comissão, certo?
Pensa um pouquinho melhor.”
Os homens tinham sorrisos ora sinistros ora bajuladores. Uns eram esquálidos,
outros barrigudos, mas quase todos se apresentavam asseados e
cuidadosamente escanhoados. Quanto ao meu trabalho estritamente carnal,
habituei-me a arranjar estratégias mentais para não sentir o lixo.
Alguns homens, mais do que sexo, queriam confidenciar o martírio dos seus
casamentos fúteis, ou pura e simplesmente desabafar, porque a solidão quando
se apodera dos homens torna-os meninos.
À noite, a Pousada do Céu era a minha cela até raiar o dia. De manhã, antes de
entrar em casa da Lena, refugiava-me na capela, no morro. Sentia saudades da
professora Arminda e da minha mãe, mas não rezava. Bastava-me a
tranquilidade do silêncio para apaziguar a minha alma.
Nas tardes solarengas em que não tinha clientes, levava a minha menina até ao
rio, que ficava para lá do morro da capela. A Sarinha fazia cabriolices na areia e
chapinhava descontraída nas poças de água. Eu tinha a sensação de que a brisa
do vento me soprava mentiras, mas não abandonava uma pontinha de esperança que despontava no meu peito, porque só queria ver a minha Sarinha feliz.
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Venâncio entrou no meu quarto com um sorriso de uma tristeza infinita. Sentou-
se respeitosamente na berma da minha cama e quedou-se a olhar para mim até
os meus olhos também se enevoarem de lágrimas. Era viúvo. Só queria alguém
com quem conversar. Mas em vez de falar, chorou. Chorou muito, abrigado no
meu peito. Eu acariciei-lhe os cabelinhos ralos, muito brancos, como quem
consola uma criança. Até o gato da dona Silvina começou a miar compadecido.
Não obstante algumas ciladas da memória, creio que foi numa noite de verão
que o Venâncio me levou para casa dele. Deitei-me a seu lado, embrulhada em
lençóis de linho amarelecidos. Os grilos embalaram-nos até uma réstia de sol
banhar a cortina da janela empoeirada. A ausência da chuva de todos os
invernos das nossas vidas deu lugar ao canto dos pássaros. Era dia. Um novo
dia.
Não posso esquecer a manhã em que fui buscar a Sarinha a casa da Lena. Havia
nos olhos da minha amiga uma melancolia tão funda que lhe adivinhei soluços,
como se eu lhe estivesse a roubar uma filha. Mas o Venâncio era um homem
bom: abriu-lhe as portas da casa para que pudesse ver a Sarinha todos os dias,
e ela cumpriu, com o coração cheio de amor.
Aos poucos, a minha menina deixou-se envolver pela ternura de um avô novo,
porque os pais da Lena já tinham falecido.
A Lena permaneceu uma “mãe” devota e sempre solteira, talvez porque a nossa
aldeia, perdida nos confins da serra, se esvaziou dos jovens que seguiram para
a cidade. Quanto a mim, continuo a subir à capela no alto do morro para escutar
os conselhos da minha mãe e, embora o Venâncio já tenha partido, ainda ouço
a sua voz branda a repousar nos cantos da casa.
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