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1° LUGAR – CRÔNICA INTERNACIONAL – IX Concurso Literário “Cidade de Ouro Branco”

O suicida

Pâmela Pedra
Porto/Portugal

Durante um almoço do seu trabalho, Daniel escutou do canto do ouvido dois de seus colegas
trocando conversas aleatórias na mesa de refeição: um deles ofereceu uma fatia de maçã de
sobremesa ao outro, mas o outro disse que não comia maçãs pois suas sementes contêm
veneno e isso só podia significar que toda a fruta era tóxica. Tóxica. A palavra ecoou na sua
mente durante toda a tarde. No fim do expediente daquele mesmo dia, Daniel foi à feira de
seu bairro e selecionou dez quilos de maçãs bastante vermelhas, pois na sua cabeça pareceu
óbvio que quanto mais vermelhas, mais venenosas e letais. Pagou em dinheiro vivo à dona
Perpétua e deixou-lhe o troco com um aceno tímido.

Como se fosse um médico dedicado em uma cirurgia de pedras nos rins, o nosso
protagonista passou a noite inteira cortando as frutas pela metade e retirando uma semente de
cada vez com uma pequena pinça de sobrancelhas. Todas iam sendo depositadas
metodicamente em um copo de vidro. Durante esse longo e meticuloso processo, sentiu fome,
mas não tinha nada para o jantar e por conta disso comeu várias das maçãs já partidas que
iam sendo descartadas e empilhadas na mesa da cozinha.

No fim, tinha dois terços do copo de vidro preenchido, porém, quando finalmente
decidiu experimentar sua primeira semente de maçã, o jovem rapaz não ficou nada agradado
com o gosto amargo da mesma, e assim desistiu da ideia do suícidio e foi dormir com o
estômago cheio.

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